O Girassol que corria atrás do Sol

Parei diante da janela da cozinha da casa da vovó e reparei um lindo girassol. Não sabia bem ao certo o motivo, mas aquela flor me encantava. Sua cor ouro brilhante parecia fixar meus olhos cada vez que eu a olhasse. E a sua persistência no acompanhar seu amor vinte e quatro (doze) horas por dia, todos os dias, me encantava ainda mais.

Como podia, eu me perguntava, uma flor tão bela, tão completa em si mesma se entregar aos raios de sol um ciclo de dia após o outro? Precisaria ela ser tão submissa àquela bola de fogo que brilhava no céu? Quando dei por mim, tinha "perdido" uma hora naquela reflexão infrutífera sobre uma personificação que eu havia projetado em objetos da minha percepção.
Tomei meu café normalmente, com direito a broa de fubá e goiabada tipicamente mineiras. Saí correndo pela roça, montei a cavalo, subi no pé de manga, chupei jabuticaba, deitei na grama e vi um submarino, uma mulher e uma xícara nas nuvens. Sem que eu percebesse, já era hora do almoço. Assentei-me na mesa de tutu com couve e la estava ele: o girassol em um vaso de flores bem no centro da mesa (não o mesmo do campo, mas um quase tão bonito).
Estava eu diante do meu dilema existencial a cerca das possibilidades infinitas de vida do girassol longe do astro rei. Fui desperto por um garfo que caiu no chão. Como um estalo, o mesmo talher me despertou para a realidade. O girassol triste não fazia todo seu percurso diário porque queria. Fazia porque era inevitável. Buscava notícias do sol o dia inteiro. Sem elas definhava, murchava.
Levantei-me da mesa correndo. Meu avô quase que me busca pela orelha pela falta de educação de não ter pedido licença ao me retirar. Antes que tomasse a bronca, tive tempo de me justificar. Expliquei que precisava por os olhos no sol. Aquele safado ingrato que todos os dias permanecia lá no alto sem se importar com o pequeno girassol. Sol safado, ingrato, sem vergonha. A flor aqui embaixo o admirando e ele nem sequer piscava. Não dava um sinal.
Alguma coisa caiu. Estalou de novo minha consciência. Parecia um sinal do sol. Um caco de vidro refletia do chão seu brilho vespertino. Ofuscou minha vista. Entendi. O sol não ignorava a flor. Triste ele me olhava agora. Não era um coitado digno de pena. Apenas um incompreendido. Tinha de aquecer um mundo de gente que dependia de sua luz, apesar de não querer. Na maioria das vezes não podia, por mais que quisesse, descansar o pescoço do girassol. Queria virar-se para a flor e poupar seus esforços em acompanhá-lo, mas não podia.
Mal sabia eu que, apesar de todo meu julgamento, o astro rei só brilhava, todos os dias, porque se sentia absolutamente amado por aquele pequeno girassol. Vivia para aquele pequeno ser e ninguém mais. O mundo? Que se exploda! Pensava o sol. Dava o seu melhor sempre. Sabendo que lá na frente, algum dia, viveria com o girassol um futuro feliz.

Gustavo Dias