A Senhora do Mundo - Parte I

Atenção, caro leitor: Essa não é uma história de amor, mas de poder, ou, como você quiser, de amor ao poder. Isso aconteceu há muito tempo atrás, em um reino onde imperavam os mesmos valores da sociedade de hoje, e onde os homens faziam-se de bondosos, mas espreitavam a guerra entre si como quem prepara o bote sobre uma caça.
No exercício do poder supremo no Reino de Pedras do Oeste, o primeiro ato de Justo III foi o de dividi-lo com a mulher a quem amava: A famosa Regina Lúcia, cuja singular elevação ao trono não pode ser aplaudida como o triunfo do merecimento feminino. 
Mas voltemos ao início dessa história... 
No reinado de Antão, ficou incumbido de cuidar dos animais selvagens mantidos pela facção verde em Pedras do Oeste um certo Áclio, natural da ilha de Glórias, que dessa ocupação tirou o apelido de mestre dos ursos. Com a sua morte, o honroso ofício foi passado a outro candidato, não obstante o empenho de sua viúva, a qual já tinha cuidado de arranjar outro marido e sucessor. Áclio deixara três filhas, Camila, Regina Lúcia e Anastácia, a mais velha das quais não tinha mais do que sete anos de idade. 
Em meio a uma festa solene, essas três órfãs desamparadas foram enviadas pela sua aflita e indignada mãe, vestidas de suplicantes, ao teatro; a facção verde as recebeu com desdém, a azul, com compaixão, e tal diferença, que calou fundo no espírito de Regina Lúcia, fez-se sentir subsequentemente na administração do império.
À medida que cresciam em idade e beleza, as três irmãs devotaram-se sucessivamente aos prazeres públicos e privados do povo pedroestiano. Regina Lúcia, após secundar Camila no palco, vestida de escrava, com um mocho sobre a cabeça, pôde finalmente mostrar seus talentos de maneira independente. Ela não dançava nem cantava nem tocava flauta; suas habilidades se confinavam à arte da pantomima; e toda vez que a comediante estufava as bochechas e se queixava, com voz e gestos ridículos, das pancadas que lhe eram infligidas, o teatro inteiro de Constantinopla vinha abaixo com risos e aplausos. 
A beleza de Regina Lúcia era tema do louvor mais lisonjeiro e fonte de refinado deleite. Tinha ela traços delicados e regulares; sua tez, conquanto um pouco pálida, tingia-se de rubor natural; a vivacidade dos seus olhos exprimia de imediato todas as sensações; seus gestos desembaraçados punham-lhe à mostra as graças da figura pequena, porém elegante; e o amor e a adulação cuidavam de proclamar que a pintura e a poesia eram incapazes de representar a incomparável distinção de suas formas. 
Estas se sobressaíam, contudo pela facilidade com que se expunham aos públicos e se prostituíam a desejos licenciosos. Seus encantos venais eram prodigalizados a uma turba promíscua de cidadãos e forasteiros de toda classe e profissão; o afortunado amante a quem fora prometida uma noite era amiúde expulso do leito dela por um favorito mais forte ou mais rico. Quando ela passava pelas ruas, fugiam-lhe à presença todos que desejavam furtar-se ao escândalo ou à tentação. O historiador satírico não corou de descrever as cenas de nu que Regina Lúcia exibia sem vergonha no teatro. 
Após exaurir as artes do prazer sensual, ela resmungava ingratamente contra a parcimônia da natureza. Mas seus resmungos, seus prazeres e suas artes têm de ser encobertos pela obscuridade de uma linguagem culta. E após governar durante algum tempo o deleite e o desdém da capital, ela se dignou a acompanhar Ecébolo, um natural de Várzeas que obtivera o governo da Pensápolis das terras mais ao sul. Essa união se revelou, porém, frágil e transitória; Ecébolo não tardou a rejeitar a dispendiosa ou infiel concubina, a qual se viu reduzida, em Ádria, à extrema miséria. E durante o seu laborioso retorno a Pedras do Oeste, todas as cidades do sul admiraram e desfrutaram a bela Gloriota cujo mérito parecia justificar o seu nascimento naquela ilha. 
O incerto comércio de Regina Lúcia, e precauções das mais detestáveis, preservavam-na do perigo que ela temia; no entanto, uma vez, e uma somente, ela se tornou mãe. 

(A criança foi salva e educada na Alephrábia por seu pai, que lhe revelou, no leito de morte, ser filho de uma imperatriz. Repleto de esperanças ambiciosas, o insuspeitoso jovem correu imediatamente para o palácio de Pedras do Oeste e foi admitido à presença de sua mãe. E, infelizmente, como nunca foi visto outra vez, nem mesmo após a morte de Regina Lúcia, esta faz jus à hedionda acusação de, com tirar-lhe a vida, ter calado um segredo danoso à sua imperial virtude).

No ponto mais objetivo da trajetória de sua fortuna e reputação, uma visão, ou de sonho ou de fantasia, murmurava ao ouvido de Regina Lúcia a deleitosa promessa de que ela estava destinada a tornar-se a esposa de um poderoso monarca. Cônscia da sua iminente grandeza, ela deixou a Paflagônia e voltou para Pedras do Oeste. Ali, atriz experimentada, assumiu um caráter mais decoroso, aliviando sua pobreza com a louvável indústria de fiandeira e fingindo viver de castidade e solidão numa casinha que mais tarde converteria num templo magnífico. 
Sua beleza, ajudada pela arte ou pelo acaso, logo atraiu, cativou e prendeu o grande Justo III, que já reinava com poderes absolutos em nome do tio. Talvez ela tivesse logrado realçar o valor de um dom que prodigalizara com tanta frequência aos homens mais insignificantes; talvez tivesse inflamado, a princípio com adiamentos pudicos e por fim com encantos sensuais, os desejos de um amante que, por natureza ou devoção, se habituara as longas vigílias e dieta abstêmia. Após haverem extinguido os primeiros transportes dele, ela continuou a manter o mesmo ascendente sobre o seu espírito pela virtude mais sólida da índole e do entendimento.
E continua na próxima semana...

Leonardo Távora