Palavra Alguma

Um olhar vale mais que mil palavras. Mas então, sendo assim, que palavras a gente usa pra traduzir um olhar? Nenhuma? Mil? Três mil?
Como ficam os contos, os poemas, as histórias, estórias? Como eu fico?
Anjos, onde estão vocês agora com sua linguagem jamais ouvida, jamais conhecida?
Apareça um de vocês aqui, agora, tome meu lugar nessa cadeira velha, dura, sem acabamento e escreva o que eu senti enquanto ele olhava atentamente meu rosto.
Sei que não precisarei falar ou tentar me expressar, um de vocês estava lá e certamente viu tudo...
Viu como ele tentava cuidar com meus olhos, como ele brincava com meus cabelos e minuciosamente desfazia meus cachos. Todos eles. Como ele elogiava.
Como ele olhava daquele jeito que eu finjo odiar para o meu busto, minhas pernas, coxas, o meu desenho deitado de lado no Box frio.
Nunca fui Amada, não assim. Entenda Anjo, ainda é complicado lidar com alguém que me Ama como eu sou, com defeitos e todo o resto que eu odeio... É minha primeira vez recíproca, lembra? Não se esqueça de escrever isso, com negrito e letra em itálico, os leitores sempre se esquecem de frisar as partes importantes.
Você viu o sorriso dele? Ou como ele bagunçava meu rosto com a maquiagem?
Viu também a hora que ele me abraçou diante do mar...? Ninguém nunca me abraçou daquela forma, parecia que eu estava envolta por uma casa humana, que respirava apoiando o queixo na minha cabeça. Eu não queria ir embora. Queria ficar ali, livre de todo o perigo, mal ou qualquer coisa que me tirasse a felicidade. Queria respirar por mais tempo...
Pergunto-me Anjo, se algum dia você já Amou, se já sentiu algo parecido com isso...
Essa coisa que tira o teu ar, que te faz escrever horas e horas, ficar diante do espelho horas e horas, e contar para que essas horas acabem duma vez. Essa coisa sabe? Que uns acham ser psicose, loucura, mas que eu prefiro denominar Amor... Amor de verdade, entende?
Por que se não, nem perca tempo tentando escrever tudo que viu. Sem saber Amar, não adianta. Sem Amor, vai-te embora daqui que eu tento me virar com as palavras humanas, que eu me esforço, que eu acho meios... Que eu me arranjo.
Eu preciso de um sábio que me Ame para me ajudar, um Anjo, um Saint. Porque sem Amor, não dá nem pra cantar, não dá nada, que dirá escrever.

Andresa Alvez