Uma boa parceria

Ele era um toquinho de gente muito curioso. De tão curioso, aprendeu desde cedo a perguntar as coisas. E como perguntava. Tinha sempre algum questionamento a fazer. Assim ficava sabendo das coisas. E uma resposta apenas não satisfazia sua curiosidade. Então ele perguntava mais... O povo achava que ele era muito sabido. Claro, de tanto perguntar, alguma coisa ele tinha que aprender. Certamente ele assimilava muito do que perguntava. Mas alguns pontos insistiam em permanecerem nebulosos, envoltos que eram no véu da ignorância em sua mente. É que ele não se lembrava de tudo que perguntava. Isso era um problema.
Foi então que o garotinho decidiu que precisava ter um caderno. Mas escrever o quê? Ele mesmo não sabia o que colocar no papel. Como elencar as coisas por prioridade e importância. E o garotinho também não tinha a instrução necessária para escrever bem. Eram garranchos entrelaçados e um tanto quanto ilegível. Isso era uma dificuldade, certamente. Mas ele não se fazia de rogado. Perguntava a todos tudo o que precisava. Por que não perguntar como escrever também? Medo ele nunca teve, com certeza. Era só dizer o que precisava saber, e pronto! Alguém certamente lhe estenderia a mão e lhe ensinaria a escrever melhor.
Uma senhorinha, muito velhinha, e talvez por isso mesmo muito sábia, logo se dispôs a ensiná-lo a arte da caligrafia. A tarefa não era fácil, mas ela não tinha medo do serviço. A vózinha, como ele passou a chamá-la, tinha uma das caligrafias mais belas da cidade. Isso o animou. O menino era muito esforçado. Tinha gosto em aprender as coisas. Isso facilitou um pouco o trabalho da dedicada senhorinha. Para ela era igualmente bom, pois ensiná-lo era uma atividade para ela, e disso a senhorinha estava realmente necessitada. Um trabalho muito interessante, pois ensinar é uma arte, e também uma satisfação, pois tinha consigo um aluno entusiasmado e totalmente dedicado ao aprendizado.
Logo a parceria começou a render frutos. O menino começou a escrever muito bem com algum tempo. Isso deixava feliz a ele e a senhorinha também. E tudo começou a fazer sentido na vida do menino. Agora ele não iria mais sofrer para decorar as respostas de tudo o que perguntava. E ele tinha combinado com sua professora que tudo o que ele escrevesse, contaria a ela, para que ela também pudesse aprender. Claro que a vózinha já sabia muitas coisas da vida, pela sua idade e pela vivência acumulada com ela. Isso era muito bom, porque todo o conhecimento que ele adquiria não ficava retido em seu caderno ou na sua memória, mas era compartilhado, por ele, por ela... Uma incrível e maravilhosa parceria, que dava bons frutos para ambas as partes.
E o menino cresceu, e sua curiosidade toda em jornalista o transformou. Uma boa faculdade ele cursou. Ótimo aluno o menino era. Sua Professora já não mais vivia. Mas ele jamais esqueceu aquela que um dia lhe deu a oportunidade de gravar em algumas folhas de papel aquilo que ele nunca se cansava de perguntar.