Lembranças de um tempo. Um mergulho na saudade

Já é manhã. Lá fora chove muito. Eu estou aqui, só e com minhas lembranças. Boas lembranças... De um tempo tão belo... Um tempo que não mais voltará, posto que é o passado, e nosso passado só consegue voltar em nossa memória, quase como um grito para que ele não se vá, por mais que os anos não cessem de passar, deixando-o cada vez mais no fundo do baú da nossa vida. Coloquei a nossa música. Lembra? Aquela que embalou os melhores momentos que vivemos, e também os mais difíceis, quando tudo parecia perdido para o nosso amor. Sim, a música era o que nos transportava para o nosso mundo particular. Nos levava direto para o céu, de brancas nuvens, de Santo Amaro, recheado de estrelas...
Eu até gosto das minhas lembranças, pois me remetem a um tempo em que fui muito feliz. Um tempo em que se acreditava em amores eternos, em paixões avassaladoras, em momentos que não seriam jamais passageiros. Tempo em que fazíamos juras de amor, que dizíamos que nosso mundo era apenas e somente nós dois. Ninguém mais. Era o tempo em que lutávamos para que esse nosso amor fosse o que aprendemos com a vida que o amor não é: Duradouro. Mas acreditar era preciso. Uma vida toda pela frente era muito chata se esse amor não nos acompanhasse. Sonhos da juventude. Imagens românticas. Um tempo que não vai voltar.
Tudo na vida passa. É o normal da vida. Com o tempo aprendemos que nada é pra sempre. Mesmo o que jurávamos ser eterno é capaz de se dissipar, como a fumaça se dissipa no ar. O amor é como uma chama. Uma vez apagada, dificilmente voltará a brilhar com toda aquela intensidade. Por isso fascina tanto. É um sentimento que provoca um estado de ânimos tão incrível em nós, que nos sentimos capazes de atravessar as mais difíceis barreiras em nome dele. Distância, tempo... Nada é impossível para aquele que tem dentro do coração o amor. Ah, os apaixonados. Tão fortes, mas tão bobos... Frágeis é o que são. Pois um simples “não” é capaz de fazer desmoronar toda fortaleza que até dois segundos atrás existia.
“Eu te amo e vou gritar pra todo mundo ouvir”, já dizia a música. É bem isso mesmo que acontece com os apaixonados. Entregam-se de corpo e alma. Vão fundo, num mergulho de cabeça e alma. São irresponsáveis. Não medem conseqüências dos próprios atos. São capazes de encher um helicóptero com pétalas de rosas e jogá-las lá do alto para que todos vejam. Bobagem? Sim, para quem não está amando, isso é ilógico, inconseqüente mesmo. Mas é impossível ser racional quando se está tomado pelo amor.
Se você já amou, mas de verdade, do fundo da sua alma, saberá bem o que é isso. É incrível. É como saltar sem pára-quedas, rumo ao infinito, a além dele também. Acho que, por isso mesmo, este é um sentimento perigoso, pois cega as pessoas, e as fazem praticar besteiras que racionalmente não se faria. Nada mais que o amor, que tanto encanta, quanto provoca tragédias. Apenas o amor. Viver sem ele. É possível sim. Depende muito de como você mesmo enxerga sua vida. Mesmo porque, quem diz não amar, não conseguir amar, já ama... Ama a si mesmo, e tanto, tanto, que não consegue se dividir com mais ninguém. Não consegue imaginar que fora de si pode existir aquela parte que talvez falte em si mesmo, e que por isso mesmo, irá completar esse ser que já é tão amado, ou autoamado.
Eu, que tanto já amei, hoje prefiro a solidão. Sei que meu grande amor está por aí, no mundo buscando sua própria felicidade. Eu também procuro a minha. A encontro no meu ser só, que ainda sozinho é feliz. Não que isso seja o calculo matemático que resolverá todos os problemas do mundo, mas resolve o meu. Ao menos aqui, com minhas lembranças de um tempo bom, o meu coração não sofre. Minha memória não vai me dizer “não”, nem querer que eu entenda o que não dá pra entender. Ela apenas roda o filme que eu já vi... Que eu já vivi... Por isso é lembrança. E ela está no seu perfume suave de morango, na maciez do seu cabelo, quando eu o acariciava, na música que nos levava ao nosso mundinho perfeito. Outro dia eu fui lá. Imaginei tê-la visto por lá... Mas eu acho que foi só imaginação mesmo...
Claro que fazer a vida acontecer é uma coisa que devemos buscar todos os dias. O mundo não teria evoluído tanto se não fosse isso. Mas eu não estou falando aqui de profissões ou de ideais, mas do coração. Do meu coração, que já não sofre como outrora, pois se satisfaz com a beleza das amizades, sem o perigo de novamente se arrebentar por causa de um amor irracional. Isso é pra sempre? Não sei. Talvez amanhã mesmo eu mude de ideia, ou não... A verdade é que, ainda que façamos nossas vidas nos levarem ao longe, ganhando prêmios e reconhecimentos, nunca devemos nos esquecer que tudo isso passa, e o que fica é a lembrança... De um tempo bom... Tempo, que deixa rastros e não volta para pegá-los.