Confiança: Esta palavra...

Pois é. Este é um dos grandes dilemas da humanidade. Como confiar em alguém? O mundo anda tão perigoso, que é realmente muito difícil dizermos “eu confio em você”. Cabe aqui falarmos sobre o papel da confiança em relações de amizade e amor. As amizades vêm de laços que formamos com alguém. É um sentimento muito poderoso, e talvez o mais importante de todos, rivalizando e cooperando com o amor. Afinal, um grande amor dificilmente não surge de uma sólida amizade, mas quando o amor não é verdade, igualmente difícil será voltarmos ao patamar de “bons amigos”. Mas estas nada mais são que duas vertentes que dependem de uma coisa muito complicada, traduzida por uma palavra simples: Confiança.
Para o nem sempre confiável Wikipédia, confiança significa um “ato de deixar de analisar se um fato é ou não verdadeiro, entregando essa análise à fonte de onde provém a informação e simplesmente absorvendo-a. Confiar em outro é muitas vezes considerado ato de amizade ou amor entre os humanos, que costumam dar provas dessa confiança. A confiança é muito subjetiva porque não pode ser medida, é preciso acreditar em alguém e conhecê-lo para poder confiar, o que torna a confiança um conceito intrínsico. Confiança é o resultado do conhecimento sobre alguém. Quanto mais informações corretas sobre quem necessitamos confiar, melhor, formamos um conceito positivo da pessoa”.
A idéia é essa mesma. A confiança não passa de mais um sentimento afetivo social. Talvez seja este o mais tênue de todos. Digamos que o mais melindroso. Mas por quê, ainda assim, este é o mais importante dos sentimentos? Simples. Tudo que existe nas relações humanas é baseado na idéia da confiar. Você acredita na informação que recebe em seu trabalho, para que possa tomar uma decisão? Então você confia no seu colega. E quando um amigo lhe conta algo que aconteceu naquela festinha que você não pode ir? Claro que você acredita, pois se seu amigo lhe falasse mentiras, certamente não seria amigo.
A mesma coisa acontece no amor, mas esta é uma seara muito mais dificil de se entender, pois o amor (eros) é irrigado pela paixão. Esta é como um combustível muito inflamável que, se misturada com o ciúme, provoca uma explosão de incalculáveis proporções. Se não amamos com a certeza de que somos amados, somos capazes de qualquer coisa (qualquer mesmo), pois a ligeira ideia de sermos tratados como joguete por quem amamos é, por si propria, arrasadora. Isso é que faz com que qualquer relacionamento descambe para a agressividade e os pesadelos.
Por mais que você ame e confie em uma pessoa, sempre existe aquele medo, que muitas vezes não passa de uma grande curiosidade, de saber o que ela está fazendo quando seus olhos não estão enxergando-na. Se der corda para o pensamento, a possibilidade de que isso vire uma doença é muito grande, pois aí sai de cena o medo para entrar o perigoso ciúme, que realmente mata toda e qualquer confiança que se tenha naquela pessoa que até outro dia só nos fazia sentir leves com o amor que dela vinha. Por quê não desistir da relação, se não se confia mais em nada que venha do seu amor? A verdade é que o ser humano é um bicho muito egocentrista.
Para entrar em qualquer relacionamento é aquela novela. É prazeroso o momento da conquista, do encantamento. Mas quando a relação fica cinzenta, tenebrosa mesmo, nenhuma das partes quer aceitar ser “deixada”. Eu é que preciso encontrar no outro o defeito cruel que me faça brigar e acabar, mas nunca aceito que terminem a relação comigo. E nessa ideia de não querer ser o abandonado, surgem, inclusive, os chamados crimes passionais. Claro, pois se ela não pode ser feliz comigo, também não o será com mais ninguém. Aqui, a nossa amiga confiança ja foi pro espaço há tempos.
A grande verdade disso tudo, para mim, é que existem para o homem o amor e a amizade. É tudo muito bonito, vendido como a salvação das coisas. “Tenha amor pelo próximo”. “Ame a natureza”. “O cachorro é o melhor amigo do homem”. O problema é que nessas duas grandes vertentes das relações humanas, ou seja, tanto no amor quanto na amizade, o ingrediente básico é a confiança. Pois é ela, simplesmente, que faz com que tudo caminhe no rumo certo. Talvez por fazer sua parte com muita descrição, este é um sentimento renegado, considerado menor. Mas nunca deveria ser tratado como o menos importante, já que sempre precisamos dele até para nos olharmos diante do espelho.
Quando Machado de Assis tratava dos devaneios de Bentinho, ele falava muito do amor que este último sentiu por Capitu, e da dor de ver seu amigo o trair com seu único e grande amor da vida. Mas, sobretudo, Machado mostrou o quanto a mente humana pode criar ilusões quando não está presente nessas relações a confiança. É claro que Capitu pode ter traído Bentinho. Mas ele não viu, só imaginou. Se ela o traiu com Escobar ou não, nunca saberemos. Só sabemos muito bem o que ele fez quando parou de confiar nela e deu mais valor aos pensamentos que o ciúme provocou em sua cabeça. E atire a primeira pedra quem nunca sentiu ciúme da pessoa amada, e nunca deu atenção aos pensamentos inúteis que esse ciúme incita.
Verdadeiro amigos são aqueles nos quais podemos confiar, alguns dizem, inclusive, de olhos fechados. Você confia em alguém?