Um último abraço

Desci as escadas apressadamente, aquele tempo, minhas pernas funcionavam mais.
Ajeitei a mochila no ombro esquerdo, que já estava dolorido por causa do peso de todos os livros que carregava.
Graças aos Céus tinha terminado minha prova de química. Ficar "de recuperação" em pleno dezembro não era algo que eu me orgulhava, mas isso não era uma consequência, e sim, uma escolha.
"Ah mas as suas amizades né", era o que minha mãe mais dizia. Mas, eu havia passado tanto tempo com a cara grudada nos livros e não tinha ganho nada em troca, faltavam apenas 3 anos para minha vida escolar acabar, e o que eu havia aproveitado disso? Então, eu decidi levar como podia, não iria mais me matar estudando ou coisas do tipo. Eu era inteligente, mas tinha algumas matérias que, de forma alguma entravam na minha cabeça, e uma delas era química, e era por esse motivo que naquela manhã de dezembro, eu estava descendo as escadas do colégio.
Coloquei os pés no piso do pátio e vi algumas crianças correndo, segui em direção ao banco de madeira onde joguei minha bolsa e sentei, pegando meu celular no bolso e discando o número do taxi para ir me buscar.
- Sempre burguesinha né? - Ouvi meu amigo dizer em voz alta, dei apenas uma gargalhada.

Eu me sentia nostálgica. Era como se aquela fosse a última vez em que eu estaria ali. Em que eu iria ouvir as crianças gritando por causa do ping pong, que eu sentiria o cheiro de pipoca com queijo, em que eu reclamaria sobre o fato de não ter doces a venda na cantina. Que eu diria algum palavrão em voz alta, em que eu ignoraria alguém... Era como se, sem eu saber, eu estivesse me despedindo.
Ao lado esquerdo, na ponta do banco, sentado encarando as mãos, estava ele. Com o boné branco virado para trás, mexendo nas pulseiras de prata. Olhei rapidamente, estávamos numa fase em que ignorávamos um pouco um ao outro, os abraços eram evitados, ficar muito tempo juntos era algo fora de cogitação... Mas, e se aquele momento fosse realmente uma despedida?
Meu celular voltou a tocar, era o moço do taxi dizendo que já estava em frente ao colégio me esperando.
Levantei respirando pesadamente, peguei minha mochila e sem saber muito bem o que dizer, fui falando o que veio na cabeça: - Bem... Então, vou embora. Tenho muita coisa pra fazer hoje e tudo mais... - Meu amigo se levantou junto comigo e me puxou pela mão para dar um abraço enquanto dizia: - Acho que só nos veremos ano que vem, né? - Respondi rindo: - É, acho que sim... - Soltei o abraço e caminhei em direção a saída, pensando mil coisas, e uma dela, era sobre ele. Ele que estava sentado na ponta do banco, encarando os dedos.
- Espera! - Ouvi a voz familiar me chamar, fazendo eu frear meus passos rapidamente.

Ouvi também ele correndo, e quando me virei, já estava bem perto.
Por fora, eu apenas levantei as sobrancelhas e perguntei: - O que você quer? - Por dentro, eu nunca estive tão feliz e tão triste ao mesmo tempo.

Feliz porque ele veio atrás de mim, até ali não sabia o motivo... E triste porque sabia que aquela seria a última vez em que o veria.
- Você não vai se despedir de mim? - Perguntou com uma voz manhosa.
- Desculpa mas... Não vejo motivos. - Respondi com um sorriso amarelo.

Mentira! Existiam motivos sim. Existia alguma coisa ali, e não, nem ouse me chamar de louca. 
Seus olhos se encheram de lágrimas e isso fez meu coração se partir em dezenas de pedaços, mas por fora eu estava indestrutível.
Até hoje eu não sei porque ele quase chorou, talvez pela despedida ou por eu ter sido tão fria. Não sei...
Com um cuidado que ele nunca teve, me abraçou pela cintura, forte, extremamente forte, como se fosse o último abraço. E na realidade, foi mesmo.
Deixei meus braços pendurados. - Você não vai me abraçar? - Ele perguntou. E eu apenas respondi: 
- Eu... Eu não consigo...- Me soltou devagar e disse com um semblante triste: - Nos vemos ano que vem? Ou antes...? - Torci os lábios e respondi: - Bem... Acho que não mais... Tchau! - Dei as costas e saí caminhando apressadamente, empurrei a porta de vidro e corri em direção ao carro. 

Entrei, bati a porta e deixei pra trás tudo que eu queria levar comigo, mas que nunca fez questão disso. Deixei pra trás tudo que era pra ficar, tudo que eu desejava nunca ter conhecido.

"I never hit so hard in love
All I wanted was to break your walls
All you ever did was break me"

Andresa Violeta Alvez