Deus, inferno e uma confusão



Já passava das duas da tarde quando Dona Tereza escutou mais uma daquelas perguntas que a deixaram sem saber muito bem o que responder. Pedro tinha onze anos e estava na fase dos porquês. Não era raro colocar sua mãe contra a parede com suas observações a respeito do mundo.
- Mãe, por que é que existe o certo e o errado?

Tereza não tinha, geralmente, muito tempo para pensar sobre estas questões. Mãe solteira, havia criado aos trancos e barrancos seus cinco filhos sozinha. Nenhum havia dado tanta despesa intelectual, mas ela não admitia deixar Pedrinho sem respostas. Sabia da importância da formação de cada um deles para o mundo e, principalmente a respeito daquela questão, gastaria o tempo que fosse para lhe explicar.
- Quando Deus inventou o mundo, meu filho, determinou que assim o fosse.
- Então Deus inventou a maldade?
- Não! Claro que não meu filho! Deus permitiu que seus filhos levassem a vida como quisessem. Uns deles se tornaram bons e outros se tornaram maus.
- Ah! Então alguns homens inventaram a maldade? E quem inventou o capeta?
- Não é capeta que se diz Pedro! Valha-me Deus! O demônio é um anjo que foi expulso do céu.
- O que ele fez? - emendou Pedrinho.
- Ele foi orgulhoso Pedro. Por isso Deus o expulsou do céu.

Os olhos de Pedro se encheram de lágrimas. Arrependido da explicação, agradeceu a sua mãe já com a voz embargada e disse que iria brincar lá fora no condomínio. Dona Tereza voltou aos seus afazeres sem se dar conta do perigo de uma explicação mal dada. Arnaldinho, filho de Dona Lúcia, vinha pelo corredor lateral do condomínio que dava acesso à quadra quando viu seu amigo sentado em um canto abraçado em suas próprias pernas e com o rosto escondido.
- Pedro! Pedro! O que aconteceu? - enquanto chutava a bola e vinha de longe correndo.
- Nada não. Deixa eu ficar quieto.
- Vamos jogar bola? - Arnaldinho convidou o amigo que, em situação outra qualquer, não se recusaria a formar a melhor dupla de ataque que o condomínio já havia visto.
- Agora não Naldo. - respondeu com o rosto ainda escondido.
- Cara, você não pode ficar assim. O jogo contra o pessoal do bloco B é amanhã. Temos que treinar.
- Você diz isso porque não é a sua mãe que vai pro inferno!

Arnaldo ficou sem entender. Perguntou outras duas vezes e o amigo não quis lhe explicar. Voltou correndo para casa e encontrou sua mãe ainda fazendo o almoço de sábado.
- Mãe, por que a Dona Tereza vai pro inferno?
- Ficou maluco menino? Que história é essa? - largando as panelas no fogão e enxugando as mãos, virou-se para o menino.
- Uai! O Pedro está lá fora chorando e me disse que não vai mais treinar porque ela vai pro inferno.

Dona Lúcia passou a mão no menino, subiu três casas e colocou o garoto a explicar tudo na porta de Tereza. Saíram os três rumo ao corredor da quadra. Do mesmo jeitinho ainda estava Pedro. Não havia se movido um palmo. Ainda com a cabeça escondida, mas desta vez soluçando de tanto chorar, foi abraçado por Dona Tereza que veio correndo.
- Meu filho, que história é essa de inferno? O que aconteceu?

Não demorou mais que cinco minutos para que a celeuma fosse resolvida. Todas as lágrimas encontraram justificativa na explicação do garoto:
- No domingo passado, quando eu fiz o gol que classificou a gente, a senhora disse que estava orgulhosa de mim. Se o capeta que é poderoso não ganhou de Deus e foi pro inferno por causa do orgulho, você também vai.

Gustavo Dias