Esperando na janela

Era um cruzamento comum, de duas ruas movimentadas. Nas quatro esquinas havia um arranha-céu, cada qual com centenas de janelas. Em cada janela, uma pessoa a esperar.
Esperavam coisas diferentes. Alguns queriam um grande amor. Outros, boas notícias. Tinha gente querendo um filho, ou um emprego, ou alguma mudança. Os interesses eram os mais variados, mas em linhas gerais, todos esperavam. Os dias passavam, as noites chegavam e iam embora. Semanas a fio, meses ao léu. Mas, eles esperavam. Tinham poucas certezas na vida, mas sabiam que no dia seguinte, naquela mesma hora, todos surgiriam em suas respectivas fenestras e ali passariam o dia em aguardo. 
Ninguém sabia ao certo quando a espera começara, mas era senso comum que fazia tempo. Seu Adonias, o homem de cabelos brancos e suspensório que morava no prédio marrom, esperava há tanto tempo que nem se lembrava mais o que tanto ansiava. Sua esposa, a saudosa Dona Esperança, já morrera muitos invernos atrás, sem nunca conseguir o que tanto desejava. O consolo é que, com o fim da vida, a espera dela chegara ao fim. Adonias, sozinho em sua janela desbotada, às vezes desistia de lembrar-se o que lhe era tão esperado e concluía que queria mesmo era Esperança de volta.
No mais alto dos arranha-céus, o prédio bege de estilo nouveau, as janelas estavam repletas de artistas, jovens e velhos, a esperar. Tal espera, apesar de infrutífera até então, trazia-lhes inspiração. Ali, naquelas ventanas, surgiram algumas das mais belas obras da humanidade. Ali o intangível virava belo, o incerto tornava-se arte, o sofrimento traduzia-se em música, pintura ou poesia. O prédio bege era o que mais trazia comiseração aos transeuntes que, lá de baixo, nas ruas movimentadas, ousassem olhar para cima. A visão daquele imenso edifício tão belo e adornado, cujos detalhes e figuras tanto agradavam aos olhos, contrastava com o semblante apático e o olhar vago de seus moradores.
O arranha-céu cinza tinha as menores janelas. Prédio novo, moderno e audacioso, de cômodos apertados, diferia-se bastante do edifício branco, do lado diametralmente oposto da rua, o mais velho de todos. Espaçoso, barroco de tão antigo, fora um dos primeiros espigões que surgiram na cidade. À época sua altura causava surpresa e espanto a todos, mas agora estava superado, ultrapassado. Um conceito antigo que encantava aos nostálgicos, mas deveras em desuso. Porém, os moradores do prédio cinza queriam ir para o branco, e vice-versa. Mas tal mudança era impossível. Permaneciam todos em suas janelas, a esperar.
Era um domingo à noite e o cheiro modorrento da segunda-feira já se fazia presente, quando deram por falta de alguém. Havia uma janela vazia.
O fato inusitado logo suscitou temores em uns, inveja em outros, dúvidas em todos. Algo acontecera, indubitavelmente. Uma mudança. Não a mudança que todos esperavam, mas uma mudança mesmo assim. Um morador olhava pro outro, cada qual em sua janela, trocando olhares de curiosidade. Os mais conservadores tinham o semblante fechado, duro e inquisidor. Alguém ousara evadir-se? Um ultraje.
No sangue de alguns, uma dose inesperada de adrenalina fazia bater mais rápido os corações. O frio na barriga que só os ansiosos bem conhecem incomodava os impacientes, que exigiam explicações.
Finalmente, a resposta veio na forma do corpo inerte sobre a maca. O cadáver deixou o prédio marrom e entrou no rabecão, carregado pela equipe funerária. O carro saiu lentamente, pela rua escura, deixando um rastro de silêncio.
Nas demais janelas, os vivos trocaram olhares. Depois, quase ao mesmo tempo, começaram a contar as janelas de baixo para cima, até chegarem à fenestra vazia. De acordo com os cálculos, seu Adonias fora encontrar-se com Dona Esperança. Uma breve consternação. Uma longa agonia. E voltaram a seus lugares de sempre.
O dia seguinte já se anunciava. Era preciso retomar a rotina. Quem sabe um dia tudo mudasse? Voltaram a esperar. Lá embaixo, a vida seguia seu rumo...

Celso Garcia