Cálate!

É uma gaiola
Onde querem te colocar
Pássaro que canta bem
Atrai a atenção do gato
Por isso, bico fechado!
De que servem tuas belas notas
Contra o zurro do burro?
Vence quem grita mais alto
Vence quem tem poder,
Não quem tem poesia
Hoje de nada valem o saber
A justiça, a harmonia,
A arte e as coisas belas
Tempos que ficaram pra trás
Restaram os selvagens
A rosnar e mostrar dentes
Se ameaçados, avançam,
Latem alto até calar
A mais corajosa das almas
É o fim da alvorada
Que, anunciada, nunca chegou
Sim, é injusto, eu sei
Mas, não banque o herói
Faça como te pedem
Entre na gaiola, vamos!
Mais vale um pássaro preso,
Mas vivo, que outro livre,
Presa fácil num voo curto
E sem sentido

Tu és canário, eles abutres agourentos que estarão aqui quando de ti sobrar o nada. Ficarão para o banquete servido em homenagem a teu descalabro. Eles estão no poder, sempre estiveram. O erro foi nosso que, por tolice, pensamos que seria diferente.

Celso Garcia