Três pequenas histórias (sobre um mundo bom)

Ando quase um quilômetro entre o trabalho e o ponto de ônibus. À noite, quando vou pra casa, passo em frente a um velho prédio pequeno, de uns poucos andares.
Ali, em um dos minúsculos apartamentos, mora alguém que está aprendendo a tocar saxofone. Não sei se é homem ou mulher, só sei que gosta de tocar jazz e blues.
Já ouviu alguém aprendendo a tocar sax? É horrível. O que sai do instrumento não é música, mas um som que mais se parece com o de gatos no cio. Sei também que ele (ou ela) pratica bastante. Uma longa briga para dominar o instrumento.
Meses atrás, eu ria daquele barulho. Mas, ontem mesmo me peguei parado embaixo à janela, apreciando sua música. Quem diria... Fiquei pensando que, um dia, ele (ou ela) vai mostrar sua arte nos palcos e encantar mais e mais pessoas.
De fato, a prática leva à perfeição.
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Eu estava no primeiro ano de faculdade. Morava em outra cidade, longe dos pais, dos amigos de infância, fazia malabarismo pro curto dinheiro não acabar antes do mês. Pra ajudar, tinha as aulas, provas, trabalhos, seminários, aquelas coisas... Enfim, eu estava cheio de motivos pra reclamar da vida.
De frente pro cubículo em que eu morava, tinha uma instituição para reabilitação de crianças e jovens com deficiências físicas, o Sorri. Todo dia, eu via dezenas de crianças e jovens com problemas mais sérios que os meus saírem de lá. Felizes, brincando... Dando banana pras dificuldades.
Pois é, somos nós que determinamos o tamanho dos nossos problemas.
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Era uma vez uma mulher de fibra, de família pobre. Casou-se jovem, como era costume naquela época. Queria ter dois filhos, um casal. Já tinha uma menina de alguns poucos anos e carregava outro bebê na barriga, estava no nono mês de gestação. Porém, devido a um erro médico, aquela mulher perdeu a criança.
Houve complicações por conta dessa gravidez e ela foi aconselhada a deixar de lado seu sonho de ter um casal de filhos. Seria perigoso ser mãe novamente. Mas, a mulher desobedeceu.
E é por causa da teimosia dessa mulher, minha mãe, que eu estou aqui hoje.
Não deixe que te digam o que você não pode fazer.

Celso Garcia