Noite de insônia

Tentei por quatro horas dormir. Esforcei-me em vão. A cama nunca antes tão desconfortável sob meu corpo e o travesseiro, que não oferecia alento a minha cabeça, foram as causas das incontáveis vezes que rolei de um lado para o outro buscando encontrar a posição ideal.

Nesta noite não fui feliz, como, de fato, nunca tinha sido. O sonho acordado me revelou as verdades que sorrateiramente se escondem na rotina do dia-a-dia. As janelas da mente se abriram como se quisessem revelar aspectos obscuros da natureza humana.
Descobri que amar não é fácil, que sonhar é necessário e que viver só vale a pena se for no amor. Peguei o telefone e várias vezes liguei sem que do outro lado da linha alguém me atendesse. Senti-me só. O desconforto de viver sozinho é de fato o sentimento mais atemorizante que existe.


Rezei. Pensei que conversava com Deus. Quando dei por mim, descobri que conversava comigo mesmo. Fé inabalável em crenças fúteis e desconexas. Reportei-me a Deus, o próprio. Pedi que não mais me deixasse enveredar pelas trilhas abertas na mata da vida pelos homens. Clamei por sua proteção e implorei que iluminasse meus caminhos.

Virei de bruços. Contei mil cento e trinta e sete carneirinhos. Todos se revoltaram contra mim e como uma manada de elefantes passaram por cima do meu sono e o pisotearam sem dó nem piedade. Telefonei novamente. Sem sucesso. Maldita operadora (pensei). Esse telefone não está desligado por acaso (retrucou meu lado passional).

Abracei o travesseiro como se a abraçasse. Senti o seu cheiro. Alguém me chamou. Abri os olhos e logo bati a mão no interruptor que fez a lâmpada acender. Odeio pensar em assombração. Depois de conferidos os quatro cantos no quarto e checar embaixo da cama (antigo esconderijo do bicho papão), desliguei a luz. Entendi que quem me chamava, na realidade, era a voz interior do meu amor. Meu coração acelerou. Respirei fundo.

Pensei nela. Pensei na vida. Dormi. Acordei suado em uma nuvem no céu. Ela me abraçava e eu a beijava.  A felicidade reinava, meu amor acontecia e ela me amava.

Gustavo Dias