Fogo nos olhos

Por várias vezes, caminhando por aquela rua, deparei-me com seus olhos tristes.
Ele devia ter uns 40 anos, talvez um pouco mais, porém aparentava carregar um sexagenário de dores no rosto pálido. Seus cabelos ralos e acinzentados eram presos em um pequeno rabo de cavalo feito às pressas, deixando fios soltos ao vento. Vestia-se de modo displicente, nunca o vi usar sapato.
Vendia livros, o homem dos olhos vazios que tanto me chamavam a atenção. Todo começo de mês, na calçada em frente ao shopping, por volta das dez da manhã, ele estendia sobre o chão um tecido aveludado, de um carmim desbotado, agachava-se e começava a tirar de uma grande bolsa vários exemplares de publicações antigas, todos usados, mas ainda assim em bom estado de conservação. Só não aparecia em dias de chuva e aos domingos. Passava longas horas ali e vendia pouco, quase nada. A cada venda, seu olhar se afundava mais. Certo dia, indo pra casa, vi um Cervantes de capa dura, letras douradas sobre um fundo vermelho sangue e uma gravura, também dourada, onde se via o engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha empunhando sua lança sobre o Rocinante.
- Quanto custa? – perguntei.
O homem, ao ver-me apontar para aquela obra, soltou um sôfrego grunhido. Vai ser caro, pensei. Uma edição como aquela, dos tempos em que ainda se faziam livros pra durar nas estantes, é coisa que não se faz mais. Os olhos dele vagaram de um modo diferente. O homem estava ali, mas seus pensamentos certamente não. Ele pegou o livro do chão e balbuciou.
- Um dia ia acontecer...
- Falou comigo?
- Não, é que. Esse livro, eu nunca quis vender.
- É que tava ali no chão.
- Vinte reais. Se levar mais dois, dou desconto.
- Se não queria vender, então por que...
- Vai ajudar a pagar umas contas, filho.
Seu olhar vazio finalmente fez sentido. Ele, que amava as letras, desfazia-se de sua coleção pra quitar dívidas. Talvez fosse um escritor, pensei eu, talvez um professor, talvez aquele livro fosse presente de alguém. O que aquele objeto representaria pro seu antigo dono? Enquanto eu tirava as notas da carteira, a culpa me invadia. Seria tarde demais para desfazer o negócio? Estaria eu levando o tesouro de alguém embora? Passei-lhe as notas, ele me entregou o livro, agradeci, dei alguns passos e, finalmente, o arrependimento venceu. Voltei.
- Toma o livro. – disse eu, encabulado – Você não devia ter vendido.
- Mas, vendi, não vendi? Tudo bem, deixa eu pegar seu dinheiro.
- Não quero o dinheiro, pode ficar. Fica com o dinheiro, com o livro. E não vende mais, é teu.
Poderia jurar que, por alguns instantes, vi faíscas em seus olhos, e um espasmo na região dos lábios que acredito ter sido um sorriso. Ele me devolveu o livro.
- Agora é seu, estava na hora. – falou ele.
- Deixa disso, faço questão.
- Quem faz questão sou eu. Você tem mais tempo pela frente. Toma, pega essa lança. Vai lá matar os gigantes que eu não consegui.
Sim, estavam ali, as faíscas nos olhos estavam ali. E só por isso peguei o livro e parti. Eu o veria no mês seguinte, e no outro, e no próximo. Quem por ali passasse veria um homem duelando contra um moinho de vento. Mas, agora eu sabia, era um gigante.

Celso Garcia