A Face Falsa da Esperança

Sua rouca voz mansa e seus dedos rápidos encantam com a melodia de um violão. As palavras lhe cativam, te seguram pela mão e até ele levam sem que perceber consiga. É abraçado e acolhido como nunca fora, surpreende-se e cai... 
Ele mente! Transforma as palavras numa ilusão serpentina, onde o veneno é injetado e espalhado pela íris, envolvendo-a com uma camada densa e espessa de falsas visões.
Perceber como não há, o feitiço só quebra quando a imagem verdadeira se materializa em frente à cegueira do envenenado. Mas a serpente não se mostra, esconde-se entre aureolas, deixando apenas a esperança falsa no coração de quem se engana.
É preciso disso pra sobreviver, para suportar-se, dos outros tira o que em si não é possível encontrar. Mas ele quer e sorri, vive feliz consumindo a luz da vida, entregando suas tempestades e medos e colhendo paz e alegria. Tudo nas mãos dos outros, tudo das mãos dos outros. E se engana quem pensa que aquelas asas brancas mostra sua pureza em bondade, ele é negro, um anjo negro, e devora quem perto se aproxima para ajuda-lo. Não é ajuda que o satisfaz, é desejo. Intenso desejo de ter, e pra ter ele tira... De mim, de ti, de nós.
A ultima gota esvai, o ultimo sorriso extrai. Já não há mais nada a prendê-lo. Se vai, sem dizer Adeus ou se volta, mas saiba que voltar não vai, não mais. Pois outro já encontrou para roubar a estranha chamada felicidade. Só então o veneno dissipa na desilusão do amor perdido. As lagrimais caem e aos poucos os olhos vão abrindo com dificuldade. Levanta-se, segue e enfim volta a enxergar de novo.

Sandro Aragão