A guerra contra o frio

Acordei aos vinte e três dias do mês de julho. Friorento que sou tive problemas para me desvencilhar dos edredons, cobertores e travesseiros que me envolviam em um verdadeiro bunker de guerra. De fato era uma guerra acordar em pleno inverno com os massacrantes oito graus de temperatura.
Coloquei o rosto para fora da trincheira quentinha. O frio passava por mim como pó de vidro nos olhos, rasgando a adorável cútis que lançando mão de hidratantes importados cultivei ao longo dos anos. Arrisquei colocar o pé para fora como quem experimenta a água de uma piscina. Amargo arrependimento. Quase congelei.

Protegi a cabeça. Fechei os olhos na esperança de que fosse um sonho ruim e repetia para mim mesmo que, quando os abrisse novamente, estaria em uma praia tropical bronzeado e ardido. Quanta ingenuidade. A verdade implacável fitava meus olhos quando despertei do transe. Posso jurar que o meu nariz congelou instantaneamente quando em um surto psicótico resolvi respirar fundo e me levantar com a coragem que habitualmente me faltava.
De um ímpeto pus-me de pé. O contato direto com o chão todo trabalhado no maldito porcelanato catalizou pelo meu corpo um frio gélido que paralisou minha alma. Levei cerca de dois segundos (que em estado de inconsciência pareceram durar horas) para do alto do meu bom humor matinal praguejar o mundo e o frio com todas as palavras das mais sujas que pude me servir.
Costumo me banhar antes de dormir no inverno para que possa me abster desta obrigação pela manhã. Na noite anterior não tinha cumprido com o ritual. Isso pouco me importava pois, felizmente, nunca tive problema com o mal cheiro. Entretanto, depois do contato com o solo que me arrepiou todos as terminações capilares do corpo, decidi que não poderia haver sensação mais desagradável e adentrei o banheiro com armas em punho e pronto para o combate.
Falhei na estratégia. Nu e de peito aberto me atirei embaixo da ducha que liberava a água mais quente que se possa imaginar. Permiti que o conforto me envolvesse e ludibriasse. O inimigo esperto e velho de guerra, aguardava na espreita em campo de batalha. Sem pressa esperou que eu me distraísse. Esqueci-me do frio lacerante. Fechei a torneira e ao abrir o box fui surpreendido. Em uma batalha feroz que se estendeu do banheiro ao quarto o vagabundo me golpeava por todos os lados enquanto eu, do alto de minha coragem guerreira, corria saltitante bradando todos os palavrões que me vieram e tentando fazer com que o pouco pano da toalha me envolvesse. Pulei no bunker na esperança de que o inimigo fosse rechaçado pelos companheiros que cobriam minha retaguarda.
Não mais levantei da cama. Rezei para que o mundo acabasse em chamas e o calor nos consumisse. Tirei o dia de folga, adormeci e acordei com o vizinho animado às onze da manhã:
- Moro num país tropical! Abençoado por Deus...

Gustavo Dias