Fração

Passei pelo portal sentindo um vento frio tocar meu rosto. Esse vento frio acontece toda vez que coloco meus pés naquele piso de mármore, e é normal.
É uma mistura de ansiedade, magia e encanto.
Sempre parece que ainda é aquela tarde de dezembro quente, em que outros braços me seguravam e eu caminhava por aquele lugar com olhos desejosos.
Agora a folha do calendário havia virado, e muito! Eu quase completava 22 invernos e tu estavas na primavera da idade.
Havias mudado teu fuso para me ver! Não precisou mudar a estação, e isso é bom! Você deveria achar que estava em casa... Era isso que eu queria que você achasse!Caminhei até as barras de ferro, saquei meu celular do bolso da jaqueta e ao olhar para a tela: 4 chamadas não atendidas sua!
Todo mundo conhece essa minha mania desligada de ser e nunca atender ligações, é normal! Você vai ter que se acostumar também!
Mordi meus lábios secos por culpa do frio, suspirei pesado...
Ao fundo eu podia ouvir risadas, ver famílias andando por aquele lugar, casais, amigos.
Sorri e pensei em dar um grito de felicidade. Algo explodia dentro de mim!
Segurei minhas mãos apertando cada dedo, tirando de mim toda a força excessiva!
Achei melhor ligar para a minha amiga e dizer que estava no local marcado!
- Estou aqui! Ele está com você? – Perguntei num sussurro, como se contasse um segredo!
O vento cortou um pouco a ligação, mas entendi perfeitamente: - Está sim, e já estamos quase perto do portal!

Desliguei rapidamente o celular e comecei a tremer! Não era frio, não era nada!
Ou melhor, era sim: Nervoso, falta de ar, vontade, desejo, Saudade do que nunca toquei, do que ainda nem havia acontecido! Era tanta coisa junta...
Pensei em andar em círculos, pensei de novo em gritar. Mas a única coisa que fiz foi colocar minha mochila no chão e procurar equilíbrio em um pilar que estava perto! Baixei os olhos encarando meus tênis, notei que havia uma mancha escura nele...
E não demorou muito até que eu tivesse a sensação de que eu estava sendo observada! Eu sabia o que era, eu sabia QUEM era.
Mordi o canto da boca e levantei a cabeça aos poucos... Era ele!
Sorriu! O sorriso de bebê que a alguns meses eu imaginava como seria ver de perto. Caminhou devagar até onde eu estava e pronto, nada mais ao redor existia!
Eu conseguia ouvir música por trás de tudo aquilo! Era como se na minha cabeça, alguém tivesse apertado o botão “play” e uma trilha sonora inesquecível começasse a tocar...
As notas se abriam e ficavam intensas conforme ele se aproximava!
Até que aquele som que ecoava em mim, agora estava no ápice, mixado com as batidas do meu coração: Você estava diante de mim!
Olhou sem saber o que falar, e eu muito menos! Na falta das palavras: Atos!
Emoldurou minha cintura com seus braços e me puxou pra perto. Sorriu de lado.
O mesmo sorriso que ele me dava quando eu dizia algo que o agradava.
E eu continuava ali, sem saber o que dizer, pensando muito!
Fechei meus olhos e trancei meus braços em seu pescoço!
Tudo foi ficando turvo, vago, distante!
Abri os olhos me deparando com a parede branca do meu quarto! Meu despertador tocava, o desliguei e levantei. Era hora de acordar.
Mas já passava da hora de te ver!
 
Andresa Alvez