Felicidade tem cura?

Felicidade tem cura? Era a pergunta que nos fazíamos naquela época. Caio, Fernanda, Gabriela e eu formávamos um grupo independente de universitários pseudo-intelectualizados há cerca de dez anos atrás. O nosso objetivo não era compreender o mundo ou responder questões existenciais que muito preocupavam outros "pensadores". Sempre buscamos alterar o nosso universo, agir no nosso entorno e buscar soluções para problemas presentes na sociedade da qual participávamos.
Caio e Fernanda estudaram Ciências Sociais. Quando da criação do Pensando o Mundo (nome que demos ao Grupo de Estudos) os dois já haviam se formado. Gabriela era estudante de psicologia do oitavo período e eu havia acabado de me formar em filosofia. Éramos jovens ativos e politizados. Quando digo da nossa pseudo-intelectualidade, não o faço em função de denegrir nossos pensamentos que, em nada, deviam aos demais. Mas, o faço na certeza de que aquela capacidade de transformar a realidade que almejávamos jamais foi alcançada, apesar da constante revisão de nossos padrões de verdade.
A busca pela cura da felicidade nos apareceu quando Caio rompeu seu relacionamento de cerca de três anos com Rebeca e percebeu que se nunca tivesse sido tão feliz, também nunca sentiria tamanha tristeza quando do término do namoro. Nos propomos, em função de um coração em frangalhos, investigar a felicidade, suas implicações e sua possível relação com a tristeza.

Há muito tempo atrás os antigos já davam conta de que a verdadeira felicidade era atingida pela busca de uma vida regrada, na qual não houvesse excessos. Aristóteles foi quem deu o nome a isso de mediania. Nesse sentido começou a nossa busca pela origem da felicidade, que nunca soubemos ao certo se era um estado de espírito individual e solitário (dependente somente da pessoa que é movida por este) ou se seria, no entanto, algo da ordem do social, como queriam Caio e Fernanda. Segundo os dois, a felicidade não independeria das relações sociais e estaria atrelada a esta. Não afirmavam porém que uma pessoa dependesse das demais para ser feliz. Exatamente aí que não conseguíamos precisar a necessidade da relação social no cálculo da produção de felicidade.
Segundo o meu ponto de vista, nunca acertaríamos a mão em uma discussão frustrada pela busca da cura de algo que precisamente não havia sido determinado. Era de extrema necessidade fazê-lo. E para não nos perdermos no academicismo que tanto odiávamos, tratei logo de fazer a diferenciação: O modo com que o Caio levara seu relacionamento, apesar de satisfazê-lo em diversos aspectos, por algum tempo, em nada se aproximou da verdadeira felicidade.
Quer tenha sido pela aproximação do relacionamento à aquilo que chamam de paixão avassaladora no início que é, de certo, um extremo que deve ser evitado ao máximo, quer tenha sido pela falta de respeito e consideração que veio a acometer os dois envolvidos no final do relacionamento, devemos levar em consideração que ambas as situações, em nada, se aproximavam da mediania Aristotélica. A verdadeira felicidade, alcançada pelo caminhar na via do meio, é dada pela observância de simples aspectos e dados que nos passam desapercebidos na maioria das vezes.
Com a concordância dos amigos de mesa, avancei nas proposições: Se a felicidade não era objeto de estudo, não fazia sentido avançarmos na busca por sua eventual cura. Pois, de fato, não haveria nada que a ligasse ao sofrimento que Caio também experimentou. Sem mais para acrescentar, demos por encerrada mais uma reunião sem que produzíssemos uma resposta para pergunta original, mas (como na maioria das vezes) produzindo uma reavaliação e reestruturação de nossas premissas anteriores.

Não saberíamos se era necessária a cura para a felicidade, entretanto, não há dúvidas de que a conhecemos melhor. Sem dúvida a transformação do universo ao nosso redor, bem como a felicidade que parece ser o fim último de nossas ações realmente, só podem ser alçadas na transformação primeira de si mesmo. Foi nesse constante processo de reconstrução e estupro diário de pensamentos que construímos nossa razão de hoje. Ainda assim, experimento a incompletude de minhas conclusões e a necessidade da reconstrução das premissas iniciais. Essa é a minha felicidade: Viver na dúvida.
 
Gustavo Dias