Velha infância

Ernesto nasceu de cesariana.
Lucas nasceu de parto normal, em casa.
Ernesto mamou no peito por quase dois anos.
Lucas, por apenas um. Sua mãe teve que voltar a trabalhar.
Aos 5, Ernesto tomava leite tirado direto da vaca. A bebida precisava ser coada em um guardanapo de pano, para tirar os pelos bovinos.
Lucas tomava leite longa vida, enriquecido com ferro, cálcio e uma substância de nome estranho que, dizia na caixinha, o fazia crescer mais forte. 
Ernesto perdeu seu primeiro dente de leite aos 7 anos. Seu pai lhe disse que, se jogasse o dentinho sobre o telhado da casa, uma fada viria e faria nascer outro. Foi o que ele fez.
Quando Lucas perdeu seu dente de leite, foi levado ao dentista. Este lhe explicou o que era o dente, do que era feito e as fases da dentição. E que não, fadas do dente não existiam.
Ernesto comia carne frita em banha de porco, feijão com bacon, pão com manteiga, ovo de galinha caipira, biscoito recheado e tomava refrigerantes cheios de sódio, gordura e glicose.
Lucas não comia carne frita, apenas grelhada, verduras, legumes, pão integral com ricota e biscoitos sem gordura, sem açúcar, sem glúten e sem sabor (e por isso mesmo, saudáveis).
Ernesto passava horas em frente à televisão, assistindo a inúteis programas infantis que nada acrescentariam a sua formação. Após assistir aos desenhos, ia pra rua brincar de super herói.
Lucas quase não via tevê. Seu tempo livre era dedicado a aulas de inglês, judô, cursos de informática e reforço escolar. Seu pai orgulhava-se em dizer que aos 17, Lucas já seria trilíngue.
Ernesto brincou de bicicleta, carrinho de rolimã, pega-pega, esconde-esconde, jogou bola na rua com os amigos e, em dias quentes, costumava nadar na lagoa perto de sua casa. Quebrou o braço uma vez, caindo duma árvore.
Lucas tinha um relógio que brilhava no escuro idêntico ao de um personagem de desenho animado, um videogame, um tablet e uma conta no Facebook. Ficava dentro de casa, a rua era muito perigosa. Nunca quebrou o braço.
Aos 14 anos Ernesto se apaixonou por Lindalva. Eram colegas de classe. Levou meses para que ele conseguisse, atrapalhadamente, falar a ela sobre seus sentimentos. Nunca sentiu um frio na barriga como aquele. Lindalva foi seu primeiro beijo.
Lucas, aos 14 anos, tinha várias namoradinhas. Todas virtuais. A maioria sequer conhecia pessoalmente. Mas, elas curtem seu status, comentam suas fotos e lhe dão apoio quando ele posta seus sentimentos no mural. Passam horas no bate-papo.
Ernesto nasceu em 1977. Lucas em 1997. Certo dia encontraram-se ao acaso. Conversaram sobre suas infâncias e perceberam que tinham muito mais que 20 anos de diferença.

Celso Garcia