O poeta e a dramaturga

Nunca fui de poesias. Elas sempre me cansavam. Ah, me desculpem os poetas... Mas escrever dessa maneira não entra no meu padrão. Sou de textos, contos, artigos, sonhos. Sou de pessoas, fatos, peças que se formam dentro do meu pensamento. Todos os meus, que eu vi, que eu vivi.
As pessoas do meu meio escreviam assim, como eu escrevo. E por isso, era sempre bom ler os outros, trocar textos... Como se troca figurinhas.
Talvez, eu escreva desse modo por culpa do meu colegial. A professora de Língua Portuguesa teimava em dar sempre redações, e nessas, eu derramava minha criatividade... Já nas aulas de Literatura, eu arrancava os cabelos tentando sair um simples soneto. Desistia, até chorava. Ganhava nota baixa por falta de dom, tsc tsc.
O colegial acabou, e com ele todas as suas aulas, principalmente as torturantes de Literatura... Mas, o rastro das aulas de Língua Portuguesa me persegue até hoje. Meu padrão de escrita nasceu lá atrás, e creio que ficará comigo pra sempre!
Ele surgiu, num momento inoportuno. Desse em que você não espera nada da vida, caminha como lesma, vegeta.
Apareceu com todas suas notas musicais, com vícios futuros. Meio galã, meio artista, meio estrela, meio escritor. Era um pouco de tudo... Era um pouco de cada talento do mundo.
Sabia fazer contos, artigos, sabia escrever sobre sonhos... E tudo isso deveras me encantava. Tinha lá seus defeitos, poucos, para ser sincera; e eu fazia questão de esquecê-los.
Eu estava num lado novo.
Enquanto todos que eu conhecia sabiam escrever apenas de uma maneira (assim como eu), ele escrevia de todas as formas possíveis. Um gênio!
Em meio a tantas letras, palavras e vírgulas, esqueci de me lembrar da poesia. Argh!
Até o dia em que ele me apareceu com uma. Mostrou-me, com um sorriso que fazia suas sardas ficarem ainda mais a mostra. Segurava nas mãos o papel como se nele tivesse pequenos pedaços de ouro.
Pisquei forte quando vi e tentei não acreditar.
Não ia com a cara de poetas. Lindo da parte deles exaltar a mulher Amada e todo o blábláblá, mas, não era "a minha praia", dá de entender, porra?
Nada contra quem escreve assim, só não me encanta e nem me deixa embasbacada. É minha opinião, meu jeito. Não gosta pára de me ler e pronto!
- Leia Amor, você vai gostar! - Ele disse.
"Você vai gostar", céus, eu não gosto de poesias! Não posso dizer isso a ele, não devo, NÃO!
Engoli o seco que estava em minha boca, sorri amarelo e respondi: - Vou ler... -
Bom, não custava tentar. Se eu não gostasse era só mentir...? Segurei a folha em mãos com o mesmo cuidado que ele segurava, apesar de ser poesia, eram as palavras dele, e elas tinham valor pra mim.
Poucas linhas, mas li cada uma delas com calma. Eu precisava digerir tudo aquilo. Talvez, até ruminar todas as palavras, um processo longo e demorado para uma mente tão fechada como a minha.
Não sou ignorante ok? Apenas tenho um padrão muito chato para leitura... Ou melhor, tinha! Ao terminar, me encontrava sem palavras.
Mudanças de conceito acontecem, mas nunca vi ser tão rápido.
- Então, o que achou? - Perguntou entusiasmado.
A resposta de outrora seria uma mentira, mas essa não.
Com toda a sinceridade e orgulho respondi: - Está apenas perfeito, Meu Amor, de verdade! Eu Adorei! - E ele me sorriu.
Era o que faltava para que fôssemos completos. Era o que faltava para que por fim, existisse o entrelace das almas.
Hoje, não troco nem textos, nem artigos e nem minhas poesias com ninguém, é tudo dele. Trocamos entre nós. Como se fossem segredos!
Nossas criações são os filhos que vieram após nosso entrelace. São os filhos que nascem dos nossos sonhos, dos nosso pensamentos.
Minhas poesias ainda engatinham, não são como as dele... Mas eu continuo tentando. Ele me ensina, me orienta. Risca e rabisca, mostra os pontos altos. Nunca me deixa parar de criar.
É, os opostos se atraem, até no mundo da escrita. Se atraem. E se adaptam.

Andresa Alvez