No interior do Brasil

Em uma cidadezinha do interior do Brasil existia um homem que adorava ser chamado de “Prefeito”, e com “P” maiúsculo. Ele já estava em seu segundo mandato, e, pela regra do país, não poderia mais se candidatar. Então, ele fatalmente perderia seu codinome favorito. Mas como só ser chamado de prefeito não basta, no Brasil as pessoas querem mandar. Não precisa nem fazer nada pelas pessoas. O bom mesmo é mandar. E para mandar, o “Prefeito” teria que ter como sucessor alguém que ficasse feliz com o cargo, mas que não quisesse, assim, mandar.
O “Prefeito” e seus amigos logo chegaram a um consenso. Escolheram um homem que nem se importava com o mandar. Queria mesmo é ser chamado de “Prefeito”. Ideal para os planos. Então, faltava só combinar com o povo. Para isso, ano eleitoral é uma maravilha. Tudo que não se fez na cidade nos quatro últimos anos, ah, nesse momento, foi feito. As ruas ficaram um tapete. As praças deixaram de ter como companheiro os matos e as rachaduras para uma grama verdinha e canteiros floridos como se estivéssemos na primavera da Holanda. 
Concorrendo com a turma do “Prefeito” - e seu candidato perfeito - tínhamos um sujeito boa praça, amigo de todos, doido pra trabalhar de fato pelas pessoas. Mas como lutar com uma prefeitura que trabalha, que deixa obras bastante visíveis, e apresenta uma cidade brilhando de limpa? Muitas pessoas desistem. É difícil convencer as pessoas que o que elas estão vendo é uma ilusão para vender. Realmente a cidade, naquele momento, agradava muito aos cidadãos. Mas o opositor continuava sua sina, de casa em casa, pedindo um voto de confiança, mais que tudo.E tinha gente que dizia que ele deveria desistir. Mas ele nem dava ouvidos. 
Enfim, chegou o dia da eleição. E o povo comprou o clima político que dominava a cidade. Até aqueles mais distantes deste mundo saiu de casa não apenas para deixar seu voto na urna, mas também pra comentar com os vizinhos e amigos nas praças, nas esquinas, na porta de casa. A cidade tava bem empolgada com essa eleição, como há muito tempo não se via. 
E, quando saiu o resultado, o gabinete do “Prefeito” implodiu. Ele não conseguia admitir que perdera a eleição, mesmo tendo feito tudo que a população demandava. Que situação ilógica, um prefeito que trabalha - na visão dele - perder assim. Quem errou? Logo os dedos começaram a se apontar. Um acusava o outro de corpo mole, e o outro devolvia a acusação na mesma moeda. O “Prefeito” foi pra rua. Numa das praças mais bonitas de sua cidade brilhante, ele subiu no coreto e chamou as pessoas. Primeiro vieram uns que estavam mais perto. Mas logo aquele ambiente ficou recheado. Todos queriam saber o que o “Prefeito” diria. 
- Minha gente, eu fiz tudo o que vocês quiseram. Que falaram tanto no meu ouvido... Arrumei escola, hospital, ruas... O que é que tá faltando pra vocês? 

Ninguém quis falar, até que um, mais corajoso - em toda cidade tem um desses - pediu a palavra. 
- Olha, Prefeito, tudo aqui tá muito bonito. Só que a gente tá tentando achar um prefeito que trabalhe todos os anos, não só no tempo da eleição. 

A primeira reação de qualquer pessoa seria revidar isso aos gritos, com xingamentos impublicáveis. Mas o “Prefeito” assimilou rapidamente o que aquele homem do povo lhe disse. Por isso, quando desceu não foi vaiado. Sim, caro leitor, as pessoas sabem que não é sempre que extremismos devem existir. O respeito também deve imperar, e naquele momento, o “Prefeito aprendeu sobre essa tão difícil arte humana: O respeito à pessoa e à inteligência do próximo.

Leonardo Távora