Sem pensar

Eu me despedacei. Me fiz em mil pedaços pra poder me juntar aos teus.
Me adaptei. Fui camaleão pela milésima vez. Eu sempre sou, porque sempre acho que vale a pena.
Na realidade, tudo sempre valeu a pena, o que não valeu foi o que ficou depois do fim.
Eu não quero que o fim chegue, ele não precisa aparecer antes disso tudo começar. Antes de eu te acordar com beijos no rosto e reclamar do teu mau humor. Não precisa ter fim antes de eu ajudar na sua mudança, de pensar em uma decoração para o seu quarto, de ser guiada pela tua mão numa pista de dança.
Eu nunca pensei no fim, eu nunca quis pensar nele. Não queria imaginar como seria.
Eu nunca pensei em nada porque você nunca pensou... Mas eu planejei coisas, datas, sofás e filmes.
Eu queria falar tanta coisa, fazer tanta coisa. Se você tivesse aceitado o convite de passar o final de semana comigo nada estaria assim. Não existiria essa confusão na minha cabeça. Você estaria do lado direito, comigo no sofá assistindo algum documentário chato.
Eu deveria ter insistido mais para você vir... Choro pelo leite derramado, você sabe disso. Estou chorando agora por um leite que nem sei se já limparam.
E agora estou aqui, com um engarrafamento de palavras. Palavras que se afunilam, que não significam nada e que querem dizer muito.
Não queria pensar em nada. Queria esvaziar minha cabeça, ficar somente eu no meu quarto por alguns minutos.
Ficar eu sem a paz, sem palavras, sem nada. Ser eu.
Mas fico me remoendo e pensando se já estás dormindo, se decidiu sair de casa ou assistir o filme que tinha alugado essa tarde. Fico pensando com quem podes estar conversando, fico pensando muito. Eu queria não pensar.
Queria voltar para o último vagão do trem e desviar do teu olhar. Queria o teu casaco, o teu rosto pensativo.
Não quero desaprender o que aprendi durante dois meses. Não quero perder e nem deixar. Não quero mudar nada. 
É uma mentira confortável, vai passar.
Não quero pensar.

Andresa Alvez