Revendo: "Sobre destino e consequência, tempo e consciência"

E continuamos nossa leitura de textos mais antigos do blog, em repostagens nas férias da equipe do Literatura Exposta.
Boa leitura!

- Lá estava Pandora, curiosa por saber que coisa poderia conter naquela caixinha:
“... Quando Pandora, por curiosidade, abriu uma caixa que trouxera do Olimpo, como presente de casamento ao marido, dela fugiram todas as calamidades e desgraças que até hoje atormentam os homens. Pandora ainda tentou fechar a caixa, mas era tarde demais: ela estava vazia, com a exceção da "esperança" que permaneceu presa junto à borda da caixa.”
“A vida é uma caixinha de surpresas”. Por trás dessa frase existe uma verdade que todo ser humano adora ignorar, mas que, por curiosidade, fuça até encontrar. Será o destino, que une e separa vidas, e que faz com que os homens consigam ter esperança em suas passagens pelo mundo, acreditando sempre em um amanhã melhor para suas medíocres vidas? Não se trata de filosofar sobre esta ou aquela religião, mesmo porque todas são cheias dos vícios humanos, mas de perceber o quanto esse destino louco faz de nossas vidas uma estranha bagunça, que dá um intrigante sabor para essa nossa existência, que nós adoramos, mesmo dizendo de pés juntos que isso não é agradável. O passar dos dias nos revela cada vez mais que somos apenas um monte de bobos que se divertem nesta festa cotidiana, até que chega o momento de irmos para casa.
Essas surpresas podem ser muito boas. Quem já não ficou extremamente feliz com alguma coisa agradável que a vida proporcionou. Não algo que o dinheiro pode comprar, pois, às vezes, é muito bom poder deitar no chão e ver as estrelas brilharem. Dizem que ter um filho é uma das maiores felicidades que os homens podem ter, pois uma criança renova a vida de uma casa. Isso é gratuito, pois ainda que se tenha que gastar rios de dinheiro educando os filhos, é a alegria deles por coisas simples que faz as pessoas acreditarem em um mundo melhor. Mas também existem coisas pelas quais podemos pagar, e que nos dão muito prazer, como aquele show do nosso artista predileto, ou aquela peça de teatro com atores maravilhosos e um texto primoroso. Sentar-se em uma poltrona de um teatro e assistir uma peça, e poder se desligar do mundo para viver aquela fantasia por uns momentos é algo indescritível.
E quem já não teve uma surpresa desagradável, daquelas que desejaríamos apagar de nossas memórias para todo o sempre? Sim, pois a vida não é feita apenas de gratas surpresas. O Destino nos prega grandes peças. Às vezes estamos tão seguros e felizes com determinado momento, ou com a companhia de determinada pessoa, que pensamos ser imbatíveis e que nada no mundo é capaz de estragar nossa felicidade. Daí vem o caprichoso destino, e muda nossas vidas completamente, num giro de 180º, e nos transforma em alguém que nunca sonharíamos ser naquele momento anterior.
Pessoas consideradas boas - pela sociedade - se vêem diante de uma decisão que certamente as tornarão más diante de quem as vê. Não que elas sejam malvadas, mas foram obrigadas a decidir de uma forma diferente do que estavam acostumadas, e isso passa uma impressão de mudança para os próximos. Toda decisão gera uma ação, que gera uma mudança, seja em uma única vida, seja com as vidas de muitas pessoas. E toda mudança gera conflito, insegurança, medo mesmo. Ainda que sejam as mesmas por dentro, as pessoas vestem uma espécie de máscara, uma armadura mesmo, que serve para se proteger do mundo frio e intransigente no qual vivemos. E isso acaba afastando aqueles que nunca conseguiram passar das aparências, pois os amigos que conseguem enxergar além da nossa capa bonita, esses nunca vão se afastar de nós, porque saberão entender nossas ações.
Tudo isso não passa de uma grande brincadeira de Chronos, diziam os Gregos. Em sua mitologia, esse era o grande Titã, formado em si mesmo, e o senhor do tempo. Nem Zeus podia brigar com Chronos, que, junto com sua companheira, Ananke (a inevitabilidade), comandavam a vida e a morte. Enfim, eles eram os responsáveis pelo tempo de cada um de nós.Isso tudo é verdade? Claro que não. Pois o tempo é imutável, e o destino só existe depois que fazemos nossas escolhas. No momento em que há uma decisão sobre o caminho que cada um deve tomar, aí traça-se o destino, que é, portanto, apenas as consequências das nossas escolhas e da nossa atitude diante dessas mesmas escolhas.
Acusar os céus por qualquer dissabor que temos em nossas vidas é a maneira mais simples de tirar dos nossos ombros nossas próprias culpas. É o jeito mais tranquilo de se safar do maior julgamento que cada um de nós fatalmente sofre: O da nossa consciência. O Pecado, palavrinha fácil em qualquer tempo ou lugar, que tanto amedronta as pessoas, não está fora, em agir contra o que a falha sociedade nos aponta, num mundo cercado pela falsidade e por regras inúteis e paralisadoras do pensamento humano. Ele está é dentro de nós, quando nossa consciência nos condena por uma decisão ruim que tomamos. Não se precisa que ninguém aponte seus dedos condenatórios, pois é nas mentes que ocorrem o verdadeiro julgamento por tudo que passamos, seja bom ou ruim.
Escolher é algo que fazemos o tempo todo. Só é preciso ter atenção quando fazemos estas escolhas, para não nos arrependermos no futuro. No mais, só nos resta nos divertir nessa festa que entramos de penetras, mas que só sairemos quando aquele tal de Chronos disser que já chega. A vida é legal, nós que a complicamos, para ela ficar mais gostosa e prazerosa. Talvez esse seja o real sentido de estarmos aqui!

Leonardo Távora