Tentar?

Naquele dia, Levi abriu os olhos como quem não quisesse fazê-lo. Talvez fosse melhor não pensar. Mais um dia começava. Na cabeceira da cama, um retrato dela, olhando-o como em todos os dias. Das melhores fotos. Olhava-o eternamente forte, já que em uma foto não se mudam as feições. Mas, por mais que ele desejasse, sua Clara não estava ali. Não, e nem estaria. Era tudo um grande jogo de ilusões. Tudo fruto da mente dele.
Não que Levi fosse um maluco ou algo assim. Ele apenas era apaixonado por quem não tinha por ele o mesmo sentimento. É verdade que os dois tinham uma sintonia muito profunda entre si. Mas ela era do mundo. Seu coração nunca foi dele. E Clara sempre soube que Levi a amava. Como a natureza ama uma flor que brota. Era tudo muito zeloso. Talvez demais. Talvez tudo dele fosse demais. Sobretudo para ela.
Enfim. Aos poucos, Levi foi percebendo que ainda que ele desse para Clara o mundo embrulhado pra presente, não seria o suficiente. De algum modo, ele jamais conseguiu acessar o coração dela como ela fez, se alojando no dele, irremediavelmente. Eu diria que isso é um dos sintomas. É preciso olhar o lado de Clara também. Seu coração já foi muito machucado. Ela não desejava mais se apaixonar. Ainda que não tenhamos a fórmula de amar quem queremos, podemos ao menos nos fechar, numa armadura, pra parar de sofrer. Muita gente faz isso.
Não, caro leitor. Este não é um conto de fim de amor, ou de separações. Falei tudo isso para mostrar que mesmo quando a vida te tira algumas coisas, ela dá outras, novas, tão irradiantes quanto as antigas. Nossa existência não é estacionária. As coisas são mutáveis, e a vida é cheia de curvas. Em cada nova curva, uma surpresa. Algo que jamais esperamos, sempre acontece. Para o bem e para o mal. No caso de Levi, para o bem. O dele, que nos importa aqui.
Naquele dia que ele não queria nem abrir os olhos, ele resolveu sair. Andar um pouco pelas ruas da cidade. Olhar as esquinas movimentadas. Pessoas indo e vindo, correndo atrás de coisas necessárias. Ou não. Vai saber. Cada vida é uma história diferente ali. O de terno certamente estava indo pro trabalho. O de fones nos ouvidos parecia mais desligado. A dona com as sacolas andava com pressa... Cada um tinha um problema pra resolver naquele dia.
No ponto de ônibus, uma garota linda estava concentrada, lendo. Parecia um livro comum. Mas não dava pra saber se era algo espontâneo ou alguma matéria pra faculdade. Ela tinha idade de estudante. Pelo menos parecia, Mulheres mentem a idade até mesmo na aparência. Ela tinha cabelos castanhos, ondulados. Não era gorda. Nem tinha a magreza das modelos. Ele diria “um tipo ideal”. Esse Levi... Enfim, ele resolveu se aproximar. E quando estava chegando perto, ela olhou em sua direção. Ele, claro, deu um sorriso maroto, de canto de boca, meio tímido. Mas ela não estava com atenção nele. Ao seu lado, passou um ônibus, parando no ponto dela, que levantou-se rapidamente para entrar nele.
Levi só teve tempo de vê-la sentando-se em seu lugar, voltando-se mais uma vez para sua leitura, concentrada. Que pena. Ele tinha tomado coragem de abordá-la no ponto do ônibus. Agora via que ia embora. Ele olhou para o chão, pensando “nossa, perdi essa sem nem ter tentado”. E olhando para o chão, Levi viu uma caderneta ali, como que caída. Pegou e olhou a primeira página. O ônibus acabara de partir. O nome dela, Agnes. Tinha uma foto dela do lado, colada. Devia ser importante. Tinha também um endereço. Seria de casa? Da faculdade? Do trabalho?
Levi olhou mais uma vez para a direção do ônibus, que agora estava longe na avenida. Ainda era possível ler o número dele. Ele o anotou. Ainda que não desse em nada, ele quis tentar. Afinal, não perderia nada de ir à luta, mas se não fosse, poderia jogar fora a grande chance de ser feliz.
Ele foi atrás. Nem sabia se ali estava a felicidade. Ele foi atrás de uma possibilidade, como tantas que a vida não cansa de nos dar. Só saberemos se no fim do arco-íris existe um pote de ouro se tentarmos chegar ao fim dele pra descobrir isso. Tente. Vá atrás. Dez portas na cara são nada perto do grande portão da felicidade que pode estar no fim do caminho que tentamos seguir.

Leonardo Távora