Tempo, Vento, Tempo

A luz amarelada do poste fazia contraste com as tuas sardas. A lua se escondia, deveria estar envergonhada de sair no meio de tantas nuvens. 
Eu queria poder encontrar meios para descrever como o teu sorriso ficava ainda mais lindo debruçado na beira do meu terraço. Como o frio da madrugada não congelava meus ossos porque tu estavas ali, bem ali, me puxando para os teus braços.
Me fazendo sentir leves arrepios só de cantar alguma coisa no meu ouvido.
Eu olhava para o céu: Mesclado de nuvens vermelhas, nuvens carregadas, com estrelas fracas brilhando no meio delas, uma lua que teimava em não sair e os extremos que não possuiam nenhuma nuvem. Era quase como estar em uma caixa, e nos quatro cantos, as luzes da cidade nos iluminavam. Ali, naqueles extremos, não havia nada que pudesse atrapalhar a visão dos morros, do porto, dos prédios, o que fazia a noite ter seus mistérios... Em alguns momentos, permanecíamos quietos, o silêncio sempre foi nosso amigo, tanto em momentos alegres como tristes. O silêncio me fazia pensar que eu não queria que aquela noite acabasse tão cedo. 
2:33. Deus, como passava rápido! Pobre de mim! Parecia que a 5 minutos atrás que eu tinha olhado para o relógio do celular e este marcava 23:44, exato momento que você decidiu ir ao mercado comprar leite condensado e miojo. 
O tempo parecia correr quando estávamos juntos. Mesmo com você passando uma noite inteira ao meu lado, parecia que tudo aquilo tinha durado segundos.
É estranho demais para tentar explicar. Precisa sentir para entender. O vento balançou as árvores, o teu cabelo, mudou as nuvens de lugar, fez barulho no que só tinha silêcio.
Coloquei minhas mãos no seu peito, prourando me aquecer ali, suas mãos desceram e pousaram nos meus quadris. Imagino que você deva gostar deles, quase sempre faz isso... Seus olhos cansados olharam nos meus que agora ardiam por culpa do sono.
Se aproximou de mim, recostou os lábios nos meus e beijou.
Devagar, calmo, sem pressa. Como acontecia quando estávamos sozinhos. 
O relógio poderia correr, fazer o tempo voar, mas quando nos beijávamos, nada importava.
Que abríssemos os olhos horas depois, que fosse dia quando nosso beijo se findasse, não importava. Importava que seus lábios tinham o mesmo gosto, que nada havia mudado. O relógio poderia te levar embora rápido, mas mesmo sem você aqui, mesmo com o tempo trabalhando contra mim, eu tinha seu beijo. Eu tinha as suas palavras guardadas am cada canto da minha casa, eu tinha suas marcas, e todos os seus toques espalhados no meu corpo. Eu tinha você. Vamos Tempo, tente me atrapalhar! Tente tirá-lo de mim, tente arrancá-lo dos meus braços!
Você pode até conseguir, mas tirar o que ele deixou em mim, nem eu posso fazer.
Terminou o beijo me abraçando forte, sussurrando. Segurou a minha mão e apontou para nossa sombra desengonçada na parede. Foi até a beira da escada, olhou pra trás quem sabe, na intenção de fotografar aquele momento na sua memória. E me acompanhou até a cozinha. E se passaram quanto tempo? 3 horas? 5? É melhor jogar os relógios fora, eles trabalham num fuso ao contrário do nosso. Eles não ajudam em nada, a não ser, no sofrimento de saber que sempre existe uma despedida no final de cada sorriso seu. Vamos contar as horas do nosso jeito, vamos esquecer os ponteiros, quebrar todos eles. Deixe as horas e o tempo trapacearem, deixe eles fazer o que quiserem. Vamos correr atrás do nosso tempo, vamos ganhar o nosso tempo. Os que contam o tempo que fiquem pra trás, vamos, do nosso jeito, da nossa maneira.

Andresa Alvez