A arte de superar limites

Fazer testes não é uma coisa fácil para ninguém. Quem não já falou mal de um dia de prova? Ainda mais quando envolviam cálculo. Eu mesmo as detestava. Mas eram necessárias. Serviam para vencer uma etapa do aprendizado, para podermos avançar no conhecimento que adquirimos não apenas na escola, mas em todos os aspectos da vida. São as provas de fogo que nos fazem mais fortes, e com mais consciência das coisas. 
E como assim o é para todos, é também para os que desejam fazer da arte de encantar os olhos e inundar os corações do público seu rotineiro trabalho. Cursos e trabalho são muito importantes, e para cada destes existirão provas, sejam elas diretas, onde se precise rabiscar um papel com conhecimento, sejam os testes feitos diante de uma banca examinadora, ou diante do grande público que paga para ver o espetáculo.
Não é qualquer um que consegue fazer da ribalta sua morada. Muitos podem até passar pelos palcos, mas poucos são os que têm seu assento lá, não como espectador, mas como promotor da alegria. Estes poucos, sim, são os melhores imitadores que temos. Não imitam tipos, ou até imitam... Mas os melhores são aqueles que imitam o mais profundo do que sentimos. Sabe aquele sentimento que existe dentro de cada um de nós, e que só nós conhecemos? É isso que os artistas que honram esse título melhor fazem. 
E artistas também precisam fazer testes, vencer etapas. Uma delas é o exame para conseguir o tão falado DRT, que é um registro profissional concedido pelas Delegacias do Trabalho espalhadas pelo Brasil. Esse registro é o documento mais exigido para quem deseja viver da arte. Não os valentes artistas indie, maravilhosos seres que fazem tudo artesanalmente e vivem de encantar as pessoas em praças e nas ruas, mas para os que desejam mostrar sua arte profissionalmente. E como é difícil passar nessa prova. É realmente para os poucos bons imitadores de sentimentos. É um reconhecimento do talento e da dedicação. 
Eric Gill disse, certa vez, que o artista não é um tipo diferente de pessoa, mas toda pessoa é um tipo diferente de artista. O que diferencia os artistas das pessoas ditas comuns é exatamente a quase necessidade vital que eles têm de se mostrar, de sair de si e dar vida a novos seres, que vivem apenas o tempo em que acontecem os espetáculos. Eu não saberia nunca deixar de ser o que sou para emprestar minha vida a algum personagem. 
É digno de aplausos todas as horas gastas na composição, no decorar textos, falas, ações, marcações. E cada aplauso é com um combustível para estas pessoas, que passam por tanto e tantos testes, pois todo novo espetáculo é uma prova. Ver um sorriso nos lábios concorrer com pedidos de “bis”, e os olhos marejados de alegria simplesmente não tem preço para quem atua. Toda vez que isso acontece, vem o alívio: “Passei por mais essa prova”. 
Arte é achar no caos uma harmonia. Artista é todo aquele que é capaz de fazer belo, para os outros, todo turbilhão de sentimentos que devastam o seu ser. Ainda que muitas e muitas provas se coloquem à frente de quem escolheu essa vida, todas serão enfrentadas de cabeça erguida, pois quem tem talento não desiste nunca, ainda que o caminho pareça difícil, quase intransponível, pois, ser artista é ter a certeza de que limites existem para serem ultrapassados. 

Vidas que se acabam a sorrir / Luzes que se apagam nada mais / É sonhar em vão, tentar ao outro iludir / Se o que se foi, pra nos não voltará jamais / Para que chorar o que passou / Lamentar perdidas ilusões / Se o ideal que sempre nos acalentou / renascerá em outros corações 
(Luzes da Ribalta (Limelight): Composição de Charles Chaplin, com letra em português de Antônio Almeida e João de Barro)

Leonardo Távora