Paz Pulmonar


Aquele vestido preto nunca me caiu tão bem. Arrumei meus cabelos fazendo questão de deixá-los bem armados e com seus cachos definidos. Borrifei meu perfume de castanha nos pulsos, pescoço e busto.
Sentei-me no meu cantinho para me maquiar. Minhas mãos tremiam tanto que cheguei a borrar minha pálpebra com rímel.
Meu estômago doía, minhas pernas tremiam. Porque diabos eu haveria de estar nervosa? Eu parecia uma dessas adolescentes inocentes e imbecis!
Não demorou muito para que eu ficasse pronta. Dei uma boa olhada no espelho, ajeitei minhas sobrancelhas. Calcei meu tênis, peguei minha bolsa e sai em direção ao carro.
A última semana tinha sido tão estranha para mim, para minha cabeça. Para meu coração. A vida dele era uma peça de teatro eterna. E agora, novos atores entravam em cena, e isso estava começando a fazer eu me sentir uma mera figurante.
Por culpa disso tudo, já estava à alguns dias sem usar nossa aliança.
Deixei-a guardada dentro da carteira, num compartimento que ficava junto com alguns papéis importantes. Durante o trajeto até chegar a casa dele, decidi colocá-la novamente... Minhas amigas me matariam. Eu deveria demonstrar orgulho, ativar o botão “foda-se você e aquela garota”. Mas, entre orgulho e Amor, nem preciso dizer quem saiu vencendo...
Eu sabia exatamente como ir até lá. Era bem perto de onde eu morava, e super fácil de ir.
Meu pai fez a volta na rua, parando o carro bem na calçada dele.
- Tem certeza que ele está aí? As janelas estão fechadas, filha... – Meu pai disse a frase que eu ainda não tinha me dado conta, e isso fez meu coração virar um caroço de azeitona. Tentei respirar, mas, não tinha como.
Oxigênio. Ele estava a poucos metros de mim. O oxigênio estava naquela casa. Ou pelo menos, deveria estar.
Pedi ao meu pai que esperasse um pouco. Sai do carro e chamei por seu nome num tom desconfiado. Eu sempre chamo as pessoas desse jeito...
Uma janela se abriu. Uma legião de anjos passou pela rua dizendo Amém.
- Ele está dormindo, mas pode entrar, ele vai adorar te ver! –
Eu devia entrar? Sim, por um instante eu hesitei. Meu pai sorriu, fechando a porta do carro e dizendo: - Volto pra te buscar às 19h, tudo bem? – Não sabia o que responder, mas minha cabeça inclinou para um sim.
O caminho até o quarto foi rápido. A casa era a mesma. O perfume era o mesmo. Como eu senti falta de cada detalhe daquele lugar. Como foi bom voltar.
- O último quarto, no fim do corredor... – Disse sua mãe num tom doce, me indicando o lugar e dizendo que eu deveria ir. Hesitei. Mais uma vez hesitei.
Céus, o que havia de errado comigo? Medo. Sim, a última semana havia provocado um abalo sísmico dentro do meu coração. E esse era o motivo por eu estar hesitando a cada dois minutos.
Ela me puxou pelo braço, me levando até o quarto. Entrou na minha frente, e eu fiquei na soleira da porta.
- Filho, a Desa está aí...

O quarto estava escuro. O ar condicionado estava ligado, o que seria uma boa desculpa para eu mentir a respeito do meu corpo estar arrepiado. Mas, para a tontura e o coração batendo forte, não havia desculpa nenhuma.
O rosto inchado de sono saiu das cobertas e me sorriu. Aquele sorriso.
Joguei minha bolsa na cama e subi nela, indo em direção dos seus braços abertos.
Meu cérebro recebeu o aviso. Passando por veias, entrando em minha corrente sanguínea. Como uma máquina que está parada a muito tempo, meus pulmões voltaram a funcionar lentamente. O oxigênio estava dentro de mim.
Fechei meus olhos e senti seus braços. Senti seu ar.
Sujei seu rosto com meu gloss de morango dando um longo beijo, e ele disse com a voz rouca:
- AH, pára, não tem problema Amor... – Amor. Voz. Pele. Toque. Ar. Eu tinha tudo aquilo de volta.

Por tempo curto e determinado. Mas, tempo o suficiente para me fazer feliz de novo. Para me fazer viver de novo. Segurei sua mão e me debrucei na cama. Voltei a olhar para o corpo branco, os olhos inchados... O cabelo estava mais comprido desde a última vez em que eu havia visto.
Eu não queria que acabasse. Eu queria que durasse pra sempre. Eu queria respirar pra sempre. Eu queria voltar a ser coadjuvante da peça da vida dele.
- Que Saudade! – Ele dizia inúmeras vezes.

Meu coração estava em paz agora. Meu corpo funcionava.
- Vem, vamos tomar café comigo! – Ele disse se sentando e se enrolando no cobertor.

Tudo era como antes. Por tempo determinado. Mas era como antes.
A bomba relógio já estava em contagem regressiva, esperando ele ir embora para me deixar sem vida novamente, mas eu deveria tentar me esquecer disso.
Coloquei-me em pé, segurei sua mão e fui em direção a cozinha.
O mundo estava no lugar que deveria estar de novo. A bomba relógio iria explodir muito em breve.
Mas, naquele instante, o que realmente importava é que eu conseguia respirar.

Andresa Alvez