Livro em Cena: "O exército de um homem só"

É sempre um prazer chegar a mais uma cena de livro aqui no Literatura Exposta. Adaptações são complicadas de ser feitas, pois é o meu olhar sobre a obra, e a literatura é libertadora porque cada um pode ter sua própria direção ao ler um livro. Ainda assim, fico contente com os comentários de incentivo. Isso me dá força para continuar melhorando cada vez mais os textos, para levar qualidade a vocês. 
Esta seção será hoje uma homenagem a Moacyr Scliar, um dos grandes escritores que o Brasil possuiu, e que faleceu neste ano. Já peço logo desculpas pelo tamanho, mas não podia escolher cena menor desse ótimo escritor gaúcho para homenageá-lo. Eminentemente cronista, Scliar tem alguns romances muito interessantes entre suas obras. Com esta, que é, sem dúvidas, digna de aplausos. A saga solitária de Birobidjan vai do bom humor à amargura. Louco? Sonhador? Quem saberá defini-lo? Nem sua esposa, Léia consegue entendê-lo plenamente. 
Boa leitura!

---------- 
CENA: CELEIRO DE BIROBIDJAN / AMANHECER / INTERNA

Birobidjan Levanta-se de sua cama. 
Vai até uma bancada onde está uma foto dos filhos. 
Birobidjan vai até onde estão os animais. 

Birobidjan: Bom dia, companheiros! 

Birobidjan vai até a galinha e encontra um ovo. 
Birobidjan apossa-se do ovo, que está quente ainda.

Birobidjan: Bravo, companheira galinha. Mas... Espera... Como estamos em uma comunidade, esse ovo é de todos. Não pertence só a mim. 

Birobidjan se angustia. 
Birobidjan sai de perto dos animais, escondendo o ovo. 

Birobidjan: O novo ano deverá ver esforços redobrados, mas estes serão, no futuro, recompensados. Fiquem certos disso, companheiros. 

Birobidjan vê Léia parada junto ao mastro com uma sacola nas mãos. 

Birobidjan: Léia! 

Birobidjan corre para ela, abraça-a e beija-a chorando. 

Birobidjan: Como estão as crianças, Léia? E como me achaste? 

Os dois sentam-se junto ao mastro. 
Birobidjan vê que Léia está magra. 
Léia quer acender um cigarro não consegue (mãos tremendo).

Birobidjan: Mas tu fumas, Léia? Tu agora fumas? 
Léia: E o que querias? 

Os dois se olham.

Birobidjan: E como estão as crianças? 
Léia: Bem... 

Leia começa a chorar. 
Birobidjan passa a mão, enxugando os olhos dela.

Birobidjan: Não chora, Léia. Eu estou bem, não vês? Me sinto melhor do que nunca. Estou comendo bem... 
Léia: Estás, Mayer? Mas tu estás magro, Mayer! 
Birobidjan: Que nada! É que perdi aquela gordura balofa! Agora sou todo músculos! Como bem... 
Léia: Comes mesmo? 
Birobidjan: Claro! Hoje, por exemplo, tem sopa no almoço. Uma sopa igual à que tu fazias. E ovo também. Só que o ovo ainda não resolvi se vai ser frito, cozido... 
Léia: Cozido. Frito te faz mal. 
Birobidjan: É verdade! (risos) É verdade, Léia! Eu já tinha me esquecido! Frito me faz mal! Mas tu não esqueces, não é, Léia? Tu sempre pensas em mim! E as crianças? 
Léia: Estão bem.., (olhando ao redor) Onde é que tu moras? Aqui? 
Birobidjan: Te lembras desta casa, Léia? Te lembras daquela noite, Léia? 
Léia: (apontando a cama) É lá que tu dormes? 
Birobidjan: Não... Preferi uma barraca lá fora. É mais fresco... agora que vem o verão. 
Léia: E como te arranjaste naquelas noites em que faz frio? E quando chove? 
Birobidjan: É quentinho na barraca, Léia! Palavra! E não entra chuva, não! 

Léia não parece muito convencida. 
Abre a sacola. 

Léia: Por via das dúvidas eu te trouxe alguma coisa. 

Léia tira da sacola um pulôver, meias de lã, pão, laranjas, três cebolas.

Birobidjan: Obrigado, Léia. Não é que esteja me fazendo falta.., tu vês, hoje por exemplo, tenho tanta coisa para comer que ainda nem escolhi... Sopa, ovo... Em todo o caso, te agradeço. Quando eu quiser variar um pouco... E as crianças? 
Léia: Bem... 
Birobidjan: E o Spartacus? 
Léia: Quem? (franze a testa)
Birobidjan: O Jorge... Tu ainda lês para ele? “O Livro dos Piratas”? Aquela parte que diz: “Português flutuava imóvel, meio afogado...", tu ainda lês? 
Léia: (Admirada) É isto mesmo! Tu ainda te lembras, não é, Mayer? Tu não esqueceste. 
Birobidjan: Eu quero te dizer uma coisa. (Sério) Não deves ler estes livros para os nossos filhos. São antieducativos. Deves ler contos do Babel. Babel escreve bem, é progressista, ele... 

Ficam em silêncio algum tempo. 

Birobidjan: Te lembras da noite em que viemos para cá? Te lembras como tu vieste para o meu quarto, bem quietinha? E te lembras do Marc Friedmann no outro dia? (Imita a voz afeminada) “Não acho justo...". 

Léia sorri.

Léia: Ora, Mayer... Era tudo sonho, aquilo... 
Birobidjan: Não, Léia! Não era sonho, não! Era um ideal, Léia. Um grande ideal, que eu agora estou pondo em prática. Vem comigo. 

Birobidjan vai até uma janela e mostra a horta.

Birobidjan: Veja. Ali será o local da futura usina, o mastro com a bandeira, o Palácio da Cultura. 

Léia fica observando tudo. 
Birobidjan abraça-a ternamente. 

Birobidjan: Léia... 

Os dois andam até a cama se beijando. 
O clima esquenta. 
De repente, Léia solta um grito. 

Léia: Me lamberam! 

Birobidjan dá um pulo. 

Léia: Um bicho! Me lambeu o pé. 

Birobidjan levanta a lona. 

Birobidjan: Ah! É a Companheira Cabra (risos)
Léia (Desconfiada): Quem? 
Birobidjan: A Companheira Cabra. Dá um leite formidável! Não é, Companheira Cabra? 

Birobidjan abraça o animal, murmurando palavras carinhosas: “É a Companheira Cabra, a minha linda, a minha querida...”. 

Léia: Eu não acredito nisso! Chega, Mayer. Você precisa voltar para casa. 
Birobidjan: É inútil, Léia. Não vês? Iniciamos aqui a construção de uma nova sociedade... 
Léia: Mas... 
Birobidjan: Venha você com as crianças? Teremos aqui uma vida saudável, livre de toda a opressão. 
Léia (Sarcasmo): Sim... Livre da opressão e cheia de bichos. Companheira Cabra e sei lá que mais... 
Birobidjan: Companheira Galinha... E o Companheiro Porco também. 
Léia: Companheira Galinha! Companheiro Porco! A que ponto chegaste, Mayer! 
Birobidjan: Concordo com todas as restrições que possas fazer à Companheira Galinha. Eu mesmo já a critiquei várias vezes. Quanto ao Companheiro Porco, é leal e corajoso. Se não trabalha mais é devido a sua própria natureza... 
Léia: Tu achas que eu ia jogar as crianças aqui neste jardim zoológico? E ainda por cima esta propriedade não é tua! É de Marc Friedmann! Ele vai ficar sabendo disto! 
Birobidjan (grito): A terra é de quem a trabalha! 

Léia, chorando, soluça. 
Birobidjan vai dar um abraço.
Ela o afasta e olha o relógio. 

Léia: Tenho de ir embora. Mas antes vou te fazer o almoço. 

Léia vai para a improvisada cozinha de Birobidjan. 
Ele a segue, embaraçado. 

Birobidjan: Não precisa, Léia... 

Ela ela não dá ouvidos, mexendo nos talheres e panelas, resmungando. “Falta tudo, aqui. Onde é que já se viu...” 
Birobidjan acende o fogo. 
Birobidjan olha para Léia colocando o ovo para cozer.

Birobidjan: Este ovo, Leia... 
Léia: O que é que. tem? 
Birobidjan: Eu mesmo queria prepará-lo. Foi um prêmio, não vês?... 

Léia pega o ovo quente. 

Léia: Que prêmio! Era um ovo igual aos outros. Come. 
Birobidjan: Não, Léia... 
Léia: Come. 
Birobidjan: Eu não gostaria... Não posso...
Léia: Come. Eu tenho de ir embora. 
Birobidjan: Léia... 
Léia: Come! Come! Come! 

Léia perde a paciência, levanta-se, recolhe suas coisas e sai, sem se despedir. 
Birobidjan a vê sair e pega o ovo e fica o olhando. 

Birobidjan: Um bem comum. Se é comum é meu também. 

Birobidjan come o ovo com rapidez.