Barro

Barro. É isso o que sou. Que somos. Vasos de barro. Venho por estes dias me comparando a um vaso de barro, tal como os que nascem nas olarias, moldados pelas mãos do oleiro, que lhes dedica Amor e atenção, permitindo que suas mãos dancem, desenhando o novo corpo, e desfazendo tudo quando encontra uma imperfeição, para de novo faze-lo. Pode lhe dar o parecer de um texto religioso, caro leitor, mas não é.
Li na bíblia cristã, as passagens que traziam mensagens sobre como devemos ser vaso, nas mãos do oleiro Deus. É um perfeito paralelo às minhas palavras agora. Mas ainda sim, não escrevo neste momento falando nesse exato sentido, apesar de estar tratando de vida espiritual. Digo isto, porque, na minha Olaria, trabalha mais de um Oleiro.
Nestes últimos dias, me senti rachando aos poucos. Rachaduras que vinham crescendo, e tomando proporções sem dimensão. Sinto-me ainda assim. Porém, vaso torto como estou, como sou, peço para ser quebrado. Não mais rachaduras dolorosas. Quero quebrar. Sei que de qualquer forma há de ser assim, mas, que seja feito sem delongas. Os atritos vem corroendo o vaso, e fazendo-o mais frágil do que de costume. É necessário, eu sei.
Disse antes que, em minha olaria, trabalhava mais de um oleiro. Penso assim, porque, vejo o quão grande é o Amor de seu peito, que jorra em seus braços, e se espalha por entre seus dedos, moldando o barro em sua forma bruta, volumosa, e sem valor aparente. Não é um processo que se possa denominar exatamente demorado, mas, os minutos que são entregues ao barro, para que nasça nas mãos de seu criador, são repletos de verdade, e cuidado. Diante do Amor que tenho encontrado á minha volta, reconheço com exatidão, os meus oleiros. Por vezes, são os mesmos que entram em conflito comigo, me fazendo rachar, me tirando pedaços. Mas, pacientes, quebram-me, até que de mim reste apenas pó. E ao barro, volto.
Hoje, zelo por meus pedaços. Mas, anseio por ser quebrado, e começar tudo novamente, um vaso novo. Os meus oleiros, também tem oleiros. Aliás, gostaria de deixar aqui escrito que, mesmo não se tratando de um texto religioso, acredito fielmente no Oleiro Deus, que nos quebra, refaz, e quebra de novo, e novamente refaz. Sou grato por isso.
Neste momento, peço a todos os que em minha olaria se fazem presente, que, moldem-me novamente.
Oleiro Deus, Oleiro filho, Oleiros filhos, para com o filho.
Oleiro pai, Oleiro Mãe.

“Teu Amor me desfaz, Teu Amor me Refaz... Quebra tudo e faz de novo, e de novo teu Amor me refaz”.
(Ana Paula Valadão).

Eis me aqui, vaso torto e em pedaços. Pronto para quebrar, e de novo nascer. E quando refeito, pronto para o fogo intenso, que fará forte. Que me fará novo.
Um vaso novo.

Cláudio Rizzih