Livro em Cena: "Índole"

Cada novo “Livro em Cena” é sempre um grande prazer pra mim. Chegar ao 1º aniversário dessa seção é motivo de muita comemoração, já que as coisas passam pela nossa vida de modo tão efêmero nos dias de hoje, e delas apreendemos poucos resquícios. Se algo dura tanto é porque tem alguma qualidade. E o termômetro é cada um de vocês que lêem o Literatura Exposta, e me dão um feedback muito animador. É pra vocês e por vocês que procuro escrever melhor a cada novo conto, cada nova crônica, cada poesia... Eu gosto disso. Lembro-me da Lúcia Zaidan me dando dicas no primeiro roteiro que coloquei aqui. Tão legal. Acho que melhorei um pouco de lá pra cá.
Hoje o escolhido pro especial de aniversário dessa seção é Índole, do Kito Mello. Ele é autor-roteirista, e teve uma formação diversa da comum, assim como a minha, que em nada tem haver com o gosto e o fascínio por criar esses universos fantásticos que tento levar a vocês por aqui. Neste livro, Kito Mello propõe uma animosa discussão sobre se o meio é capaz de moldar a índole de uma pessoa. Márcio cresceu num ambiente muito conturbado, com pais que estavam preocupados muito mais com o próprio bem-estar, e não tinham tempo para dedicar a ele e à irmã, Bia. Se isso é capaz de transformá-lo ou não em alguém de caráter duvidoso, vocês só vão saber lendo o livro, que vale a pena contar da biblioteca particular de todos. 
Boa leitura!

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CENA: LANCHONETE DA ESQUINA / MANHÃ / INTERNA E EXTERNA 

Márcio está saindo da livraria. 
Do lado de fora, olha para os livros na vitrine. 
Ao se virar, esbarra no Dr. Célio. 

Márcio: Dr. Célio! 
Dr. Célio: Márcio! Por onde você anda, rapaz! Estou tentando entrar em contato com você e não consigo. 
Márcio: Estava internado. 
Dr. Célio: Como assim? 
Márcio: É isso mesmo. Estava internado numa clínica psiquiátrica aqui perto. 
Dr. Célio: Mas o que houve? 
Márcio: Tentei me matar, doutor. A Pressão na minha cabeça estava muito forte e acabei descontrolando. 

Márcio abaixa a cabeça. 
Dr. Célio olha para Márcio. 

Dr. Célio: Vamos tomar um café ali na esquina pra você me contar essa história direito. 
Márcio: Mas você não está com pressa? Vai me atender sem que eu tenha agendado? Olha, não quero atrapalhar. 
Dr. Célio: Marcio, meu filho, eu gosto muito de você, e acredito na sua inocência. E não me esqueço, também, da recomendação do Alexandre ao seu respeito. 

Márcio sorri. 
Os dois entram na lanchonete. 

Dr. Célio: A Bia já havia me falado do processo que você está enfrentando. E Alexandre foi categórico ao pedir que eu cuidasse com carinho de você. 

Márcio fica desconcertado. 
Dr. Célio chama o balconista. 

Dr. Célio: Por favor, amigo, sirva-me dois cafezinhos? 
Márcio: Dr. Célio, o senhor se incomodaria de me pagar um pão com manteiga? 
Dr. Célio: O que é isso, Márcio! Você não se alimentou ainda? 
Márcio: Não, e não tenho nenhum tostão furado comigo. 
Dr. Célio: Fique tranquilo. Peça o que quiser, e depois vamos para o meu escritório. 
Márcio: Não posso agora. Tenho que conversar com meu médico. Eu fugi da clínica. 
Dr. Célio: Rapaz, você gosta mesmo de uma aventura, não é? Jack Bauer nem chega aos seus pés. 

Os dois riem. 

Márcio: Antes fosse um thriller de ação, doutor. Mas isso está parecendo mais um filme de terror que não acaba nunca. 
Dr. Célio: Você está vivendo maus bocados desde que tentou o suicídio, não é? 
Márcio: Sim, Doutor. E agora estou aqui, fugindo o tempo inteiro. Tenho medo de ambulâncias. Sempre acho que são os enfermeiros que estão atrás de mim... 
Dr. Célio: É, não é bom viver assim. 
Márcio: Se vejo um carro da polícia, penso que vão me levar de volta pra aquele inferno... 
Dr. Célio: Mas eles nem podem. Você está respondendo o processo em liberdade. 
Márcio: Pois é... E se vejo alguém mal encarado, penso ser da gangue do “Nêgo Lindo”, querendo vingança pela minha audácia. 

Os dois ficam em silêncio. 

Dr. Célio: Você quer que eu vá contigo ao médico? 
Márcio: Não precisa. 
Dr. Célio: O que espera que ele faça? 
Márcio: Que entre em contato com a clínica e diga que me deu alta, que estou sob os cuidados dele. 
Dr. Célio: Acha que ele fará isso? 
Márcio: Se ele se convencer que eu não estou louco, sim. 
Dr. Célio: E você está louco? 
Márcio: Não tenho certeza. 

Os dois riem. 

Dr. Célio: Eu vou com você. Quem sabe isso não ajuda no diagnóstico dele. 
Márcio: Das duas uma. Ou ele manda me soltar, ou acaba mandando nos prender. 

Eles riem muito, novamente. 
Dr. Célio abraça Márcio

Dr. Célio: Eu acredito em você, rapaz. O que você fez pelo meu filho na adolescência me da a certeza de que você pode até ser louco, mas é um cara de caráter. E eu respeito homens de caráter. 
Márcio: Obrigado, doutor. É bom saber que não estou sozinho. 
Dr. Célio: Mas você não está sozinho. Onde está sua família? 
Márcio: Que família, doutor? 
Dr. Célio: Como, que família? A sua, oras. Onde estão seus pais, sua irmã, esposa e filhos? 
Márcio: Estou sozinho, doutor. Meus pais não acreditam na minha inocência. Minha mãe disse que eu tinha que ter roubado mais pra justificar minha prisão. Meu pai pagou a fiança... E me cobrou uma semana depois, dizendo que o dinheiro pertencia à sogra dele. 
Dr. Célio: Mas ele não tem ações e imóveis? 
Márcio: Pois é... Mas disse que o dinheiro foi emprestado pela sogra. Eu tive que vender meu carro e pagá-lo. 
Dr. Célio: Mas, e a Bia? 
Márcio: Bia é uma pessoa boa, doutor. Mas é muito influenciada pela minha mãe. Perdeu a juventude cuidando dela e se tornou uma pessoa amarga. 
Dr. Célio: Já havia percebido. Por isso achei melhor me afastar. 
Márcio: Sinto muito por ela. Gostaria de protegê-la, mas não há nada que eu possa fazer se ela não me deixa fazê-lo. 
Dr. Célio: Mas e sua mulher? Seus filhos? 
Márcio: Minha mulher optou pelo emprego. Quer a separação porque acha que, unida a mim, posso impedir sua ascensão profissional na empresa. 
Dr. Célio: Sério? 
Márcio: Sim. Marcela se tornou a minha maior inimiga, mesmo sabendo da minha inocência. 
Dr. Célio: E as crianças? 
Márcio: Michel é muito pequeno e de personalidade mais fraca. Acabou engolido pela mãe, que o explora emocionalmente. Gabriel, bem, esse é igualzinho a mim, doutor. É minha paixão. Mas não posso vê-lo normalmente. A mãe não cumpre o acordo judicial e está sempre se mudando ou viajando para que eu não os veja. 
Dr. Célio: Se eu não conhecesse você, poderia jurar que isso é uma história de ficção. 
Márcio: Minha vida daria um bom filme, ou, quem sabe, uma novela. Poderia ao menos ganhar dinheiro com minha tragédia pessoal. 
Dr. Célio: Vamos resolver esses problemas, ok? 
Márcio: Tomara... 
Dr. Célio: Agora vamos ao seu médico. 

Dr. Célio paga a conta da lanchonete. 
Os dois se abraçam. 
Os dois saem rumo ao consultório do médico.