Inventando: "A dúvida de Caio"

Enfim estou com uma cena inventada, minha, aqui no blog novamente. Gosto dessa seção. Sinto por não poder fazê-la com mais periodicidade. Essa cena de hoje é um monólogo, um teste com personagens que faço quando os estou criando. É, literalmente, colocar um texto na boca deles. O Caio Amorim é um jovem que descobre que é um anjo perdido que conhece o coração dos homens por sempre ter vivido entre eles, desde que pediu o boné e caiu fora do céu por conta própria. Na lenda, e na história, ele é disputado por Miguel e por Lúcifer, e o lado que ele escolher ganha muita força na batalha do juízo final. Mas, e você no lugar de Caio? Condenaria ou absolveria a humanidade? Difícil, né? Ele que o diga.
Boa leitura!

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CENA: ALTO DA SERRA / EXTERNA / NOITE

CAIO (Homem, 27 anos, vestindo calça jeans, camisa lisa com uma camisa social por cima, com uma câmera pendurada no ombro) está sentado no mirante da Serra, olhando a cidade abaixo.

Caio
(Olhar firme)
Eu? Anjo? Putz! Era só o que me faltava. O que foi que eu fiz pra inventarem mais essa pra minha vida? Eu nunca quis ser herói. Aliás, eu só quero poder tirar minhas fotos em paz. Por quê, meu Deus, Por quê? Só pode ser piada do Valentim. Só eu mesmo pra arrumar um amigo maluco que vem comigo para o Brasil, e ainda me traz até aqui pra poder me fazer uma piadinha sem graça dessa. E ainda com a ajuda desses meus irmãos. Todos, mas todos mesmo, brincando com a minha cara. Cambada de idiotas. (Pausa, levando a mão ao rosto) QUE RAIVA! (Pausa mais longa, mudando a expressão, cerrando as sobrancelhas) E se estiverem todos falando a verdade? Mas logo EU vou decidir sobre o coração dos homens? Eu não sei decidir nem sobre o meu! Que sacanagem com as pessoas. Não, não... Não pode ser isso não. Agora, eu, que sempre me bastei, que nunca ameeeei alguém assim, sou um anjo, um anjo perdido pelo mundo? Que maluquice. Não deve ser isso não. Eles todos estão mesmo é enganados. Talvez até acreditem mesmo. Mas estão enganados sobre o dono dessa missão. Eu é que não sou. (Pausa) Um cara sem graça que vive de fotografar o mundo e seus habitantes. Totalmente fora do comum isso. Do correto. Um herói seria daqueles fortões. Anjo então... Meu Deus! Não tenho nem o tipo físico. E também não tenho o mental. Se é pra ser anjo, pelo menos que fosse o Rafa, que é inteligente e já tem nome de anjo. Definitivamente, eu não tenho jeito pra anjo. (Pausa mais longa, olhando para o horizonte e soltando um sorriso tímido) Até que seria legal ter o poder de dizer o que acontecerá com todo mundo. Tem uma galerinha que merece muito ir pros quintos. Mas tem um pessoal também que, sacanagem, não é justo condenar por causa dos outros. (Pausa) Tem uma galerinha mais ou menos também. Não sei o que eu faria com esses. Talvez os condenasse. Pessoal morno. Nem lá, nem cá! Credo. (Pausa) Mas Seu Altino disse que é uma decisão para todos. É pra eu dizer de que lado estou nessa história. (Levando a mão ao rosto) Ai, que difícil!!! Não posso. Eu não consigo. Não sou esse herói, esse anjo perdido que eles estão falando. Não dá. É uma sacanagem! Comigo e com as pessoas. E se eu errar? Se eu escolher o lado que está mentindo? Não, Caio, essa missão não é sua. Não adianta querer bancar o forte. Você não consegue. É melhor me recolher à minha insignificância, sabe! Bem mais fácil. Pronto! Nada de missão impossível. Nada de anjo poderoso. Eu sou só o Caio Amorim, do mundo e das minhas fotos.

Caio se levanta e sai, decidido.

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Leonardo Távora