Folhetim do ocaso

Não foi preciso ler Romeu e Julieta para saber que aquele amor não poderia dar certo. O fim poderia não ser trágico, mas haveria um fim.
Não foi preciso ser Capuleto e Montecchio, as famílias não eram rivais. Nem foi preciso diferença socioeconômica, ou espacial, ou temporal. Contudo, estava na cara o tempo todo, não daria certo.
Mesmo assim, com nada contra nem a favor, apaixonaram-se. Culpa dos hormônios, ou do sangue quente da juventude? Talvez de Cupido, o anjo arqueiro, cuja flecha atingira em cheio o coração de duas pessoas tão opostas.
Ela era prática, direta, organizada, séria, racional. Ele, um boêmio emotivo, dado a gracejos fora de hora, empírico, adepto ao deixa acontecer. O coração, alheio a tantas diferenças, bateu forte, os olhos se olharam, o amor brotou. E cresceu. E floresceu. E durou algum tempo - mais do que se supunha.
Houve sinais do ocaso, claro, mas ambos ignoraram. O amor dentro do peito era escudo e turbina. Protegidos, foram em frente. 
Como todo coração jovem que nunca sofreu desilusão, o deles entregou-se de corpo e alma. Acreditaram que os dois eram um. Se soubessem o final, não o teriam feito. Mas, pobre ser humano, punido a viver sabendo um dia de cada vez. O caminho de cada um é construído conforme os passos são dados. E lá foram eles, de mãos dadas, rumo ao abismo.
Aos poucos, as diferenças ficaram evidentes. O jeito de um, a maneira do outro, cada qual a seu modo. O problema vinha de dentro, no eu de cada um, suas personalidades eram os Capuletos e Montecchios da vez. Como combater algo do qual não se pode fugir? Como mudar a si mesmo para agradar a outro, se neste processo, desagrada-se a si mesmo?
As primeiras brigas foram as piores.
Depois, como tempestade que se dissipa, restaram escombros. Passados os raios e trovões e a torrencialidade dos sentimentos, as nuvens negras foram embora. Então, à luz do dia, puderam ver com clareza.
O beijo já não era intenso. Os corpos só se tocavam em esbarrões acidentais. Os olhos já procuravam outros olhares. Quando juntos, queriam estar sós. No peito, um vazio.
No coração de ambos, a primeira cicatriz. O tão jovem amor viu-se doído, retraiu-se.
Numa segunda-feira qualquer, cada qual procurou seu canto. Desde então, viam-se apenas por acaso, em mercados, bares e ruas. Preferiam fingir não se notar. Ignoraram-se.
Ficaram as memórias e algumas lições. Decidiram nunca mais se entregar tanto. Como se fosse algo que pudessem controlar.
Levantaram, sacodiram a poeira, deram a volta por cima.
Vida que segue. Amores que vêm e vão, em vão.

Celso Garcia