De volta

Jorge acorda cedo, desperta sem o barulho de seu celular que toca uma melodia feita para despertar os sentidos e não assustar. Hoje é diferente, ele apalpa o criado e não encontra, abre mais os olhos e olha em volta, o quarto está diferente, não vê nada eletrônico e os móveis são antigos, mas com aparência de novos. Senta na cama e coloca os óculos percebendo que seu quarto está totalmente diferente e corre para a janela.

Da janela Jorge chama uma pessoa, sua avó com a mesma aparência de quando ele era criança responde o chamando para o café e logo avisando que se ele quiser o pãozinho de queijo quente que descesse logo. Jorge fecha a janela e volta pra cama, isto deve ser um sonho pensou, coçou os olhos, deu alguns beliscões no braço, não sentiu muita dor mas mesmo assim estava acordado e vivendo no passado.
Jorge desce as escadas e continua olhando tudo ao redor reconhecendo a casa de sua avó, uma fazenda em estilo barroco, não conseguiu acreditar, a casa hoje está fechada e caindo, nunca mais pisou lá desde as últimas férias de julho. Jorge vai até a cozinha e se depara com Sônia a empregada da avó, também já falecida nos dias atuais e que no momento aparentava jovialidade e simpatia, assim como quando ele era criança. Ele se senta à mesa que está repleta de quitutes da cozinha mineira de bolos, biscoitos assados, rosquinhas, geleias pães, no meio vê um bolo e broas de fubá, item proibido em sua dieta atual devido a azia recorrente, ele então resolve experimentar e não sente nada, isto continua estranho pensou. 
A avó entra dá um beijo na testa dele, ele se assusta e continua comendo um pouco de cada uma das delícias expostas e já perguntando o que teria de almoço à avó que segura uma leiteira com o leite fumegante. A avó responde, este você não terá e coloca a leiteria sobre a mesa, ele se assusta com a leiteira em sua frente que o reflete como uma criança, mesma aparência de quando tinha 10 anos, ele olha para os braços e mãos e as percebe pequena. Ele voltou a ser criança, a única explicação seria ter morrido e voltado a forma e lugar em que foi mais feliz, uma espécie de paraíso pessoal. Por fim resolve aceitar que está morto e corre para abraçar a avó que está lendo um jornal com as mãos nos óculos como os segurando para não cair, ela sorri com o abraço apertado e Jorge abre os olhos.
Um barulho incessante de algo tocando, Jorge está deitado novamente na cama, abre os olhos direito e percebe todos os aparelhos eletrônicos no quarto, televisão, receptor de televisão, controles e móveis estilo clean. Ele estava de volta, olhou os braços e mãos crescidas, colocou os óculos e calou o celular, corre até a janela e a abre deixando entrar o barulho da cidade e chama uma mulher que passa na rua, que o repreende dizendo estar cedo demais pra gracinha. Jorge fecha a janela e volta pra cama, fecha os olhos bem apertado, sua vontade é retornar ao sonho, não será possível, mas o paraíso podia ser revivido.

Marcus Campolina