Versões de Realidade

Sonhar. Imaginar como seria. Imaginar como pode ser. Imaginar como vai ser se...
Acordar, trabalhar, estudar, descansar e dormir. Um dia comum. Um dia comum para você. Para ela, um dia cheio de aventuras e novidades, histórias sem começo, mas com finais cada vez mais felizes.
Ela sonha acordada. Sonha com uma vida melhor, com um amor ao seu lado e uma felicidade que não cabe no peito.
Um dia resolveu sonhar. Resolveu mesmo. Disse que queria viver em sua outra vida. Sua versão melhorada da realidade. E assim fez.
A cada movimento real, imaginava como seria em seu mundo alternativo. Cada palavra dita aqui, ecoava e causava efeitos lá. Imaginava que sua casa era em outro país. Achava que era casada com aquele amor platônico da juventude e tinha seu primeiro bebê. 
Viviam felizes, com planos de aumentar a família e trocar de carro. A vida era boa. A vida alternativa era boa. Sua versão da realidade era melhor que sua realidade.
Esqueceu amigos, ignorou a família e brigou com o namorado. Tudo isso para passar mais tempo com seus pensamentos, com sua família secreta, em seu mundo imaginário.
Porém, depois de criar tudo o que podia, suas ideias acabaram. O que mais fazer em mundo tão perfeito?
E ela acordou. Viu o que havia deixado para trás.
Sua vida de mentira estava sem graça e sua vida real estava acabando. 
“O que aconteceu?”, ela se perguntava. E a resposta era aquele conselho velho, que todo mundo fala: “Viva o hoje. Aproveite o momento.”
E isso doía. Ela não queria o “hoje”, tampouco o “momento”. Ela queria outro mundo, queria aquele imaginário. Mas não podia viver de versões, teria que viver sua realidade.
Ela acordou, mas não acreditou. Não queria acreditar que aquele mundo bonito, cheio de alegria, estava apenas em sua cabeça.
Ela acordou, mas não queria acordar. Lá, a vida era mais fácil. Chata, porém mais fácil.
Ela acordou, mas só queria voltar a dormir.

Marina Messias