Estágios da embriaguez

Há quem beba sozinho, há quem beba acompanhado. Tanto faz.
Os motivos, esses são vários. Tem gente que tem sede, tem gente que quer abrir o apetite. Uns querem se esquecer, outros querem celebrar, ou se libertar. Há os que bebem para se socializar, e existem aqueles que o fazem para isolar-se do mundo. Tanto faz.
A bebida é democrática. Tem para todos os gostos e necessidades. Do amargo ao doce, do mínimo teor alcoólico ao famoso derruba elefante. Da cerveja ao vinho, do conhaque ao Bourbon, da cidra ao champanhe, da cachaça ao absinto. Chama o garçom, é só escolher. Tanto faz.
Primeiro é aquela sensação gostosa de reencontro. Assim que o drink se encontra com as papilas gustativas, o cérebro rapidamente responde com um sorriso. É como rever um amigo saudoso, que há muito não se via. As primeiras doses são as melhores. Talvez pela ausência delas, anterior ao ato de beber, talvez por um mero erro de percepção do córtex, mas a verdade é que o primeiro gole é como um primeiro beijo, tem um sabor especial. Pode muito bem ser igual a todos os demais, cientificamente falando, mas lá no fundo da alma a gente sabe que ele é imbatível. De imediato os sentidos se atiçam e o mundo começa a se transformar.
Passados alguns minutos, e muitos copos depois, a língua já não mais é tão perspicaz. A satisfação não é a mesma, o que não quer dizer que seja ruim. Pelo contrário, pois se o fosse, já teríamos parado. Mas, quem disse que queremos ficar só nisso. Garçom, o copo está vazio, venha encher depressa! A esta altura, não somos mais quem éramos. Algo está diferente, mas queremos provar para nós mesmos que não. Está tudo sob controle. Mais uma dose!
E é assim, que aos poucos, as palavras começam a tropeçar, os pensamentos se engalfinham com as memórias latentes daquilo que nunca existiu ou existiu de modo totalmente diferente. Os sons se confundem, os rostos se embaralham, a timidez dá lugar à coragem, enquanto um leve formigamento nas extremidades se faz sentir. E então, tal qual numa cena de filme de ação, começamos a ver tudo em câmera lenta. É fascinante.
O reflexo e a vergonha já foram para as cucuias. Daí pra perda total do bom senso é um pulo. Fala-se o que não devia. Faz-se o que não devia. Agora, tanto faz.
Não é apenas um porre homérico, é um porre bukowskiano. Quando o ébrio dá por si, já está sobre a mesa do bar, ou com o rosto enfiado num vaso sanitário. O tímido já cantou mulher casada na mesa ao lado. O extrovertido, coitado, esse chora porque ninguém lhe dá a atenção devida. O limite do ridículo, esse já foi ultrapassado minutos atrás. Mas, e daí? Quem liga? Qualquer coisa, a culpa é do álcool. O réu perfeito, já que o mesmo não pode se defender.
Reza a cartilha do bom bebedor que este é o ponto em que se deve parar. Mas, há quem contrarie e sábia prescrição e vá ao infinito e além, onde nenhum Homem jamais esteve. Se o céu é o limite, que fiquem cada vez mais altos. Os membros não mais obedecem. Da boca já não sai coisa com coisa. O cérebro, este órgão divino que, diz a ciência, é nosso grande diferencial para com os demais seres vivos, bem, este já não responde mais por si. Talvez nem consiga mais distinguir a realidade da fantasia. A memória, coitada, já desistiu de trabalhar uns três copos antes. Os neurônios mais resistentes fazem uma reunião de emergência para decidir se tomam juízo e param aquela farra ali mesmo ou se simplesmente decretam greve, causando um apagão generalizado (o tal coma alcoólico, no jargão da Medicina).
Por sorte, a maioria de nós resolve interromper a descida ladeira abaixo. A conta, por favor. Afinal, se o objetivo era esquecer da vida, então o resultado foi obtido com êxito. Não nos lembramos mais dos problemas, do chefe, dos impostos, da unha encravada, de quem ri de nossa cara. Inebriados, vamos pra casa aos trancos e barrancos. Nem nos lembraremos de como fomos parar ali. Se bobear nem nos recordaremos do que aconteceu na noite passada. O que resta é ressaca, cruel e insensível. E apesar da experiência de quase morte, quem sabe um dia repitamos a façanha.
E o fígado que se vire...

Celso Garcia