Insensato Soldadinho

Brasil. Ano de 2014.
Mais um final apoteótico. Mais um sucesso de público. Mais uma interpretação espetacular em sua carreira. A crítica se rende mais uma vez ao seu talento. O que mais pode querer José Henrique Martins? Ator de raro talento, ali está recebendo mais uma gama de aplausos naquele momento. O público está aos seus pés. Ele conseguiu mais uma vez. Naquele palco, ele sempre reinou absoluto. 
Flores atiradas. Aplausos fervorosos ouvidos em todas as dependências do formidável teatro. Sem dúvidas esse é o seu melhor momento. Dalí, seu nome seria comentado – mais uma vez – em todas as rodas culturais do Brasil e do mundo, visto o bom número de turistas estrangeiros que afluíram para assistir seu desempenho especialmente nesta noite.
Mas aquele homem glorioso não está bem consigo mesmo. Ao tirar sua maquiagem, no camarim, pode-se notar que ali há um homem, de carne e osso, que tem problemas, como todo simples humano. O ritual de todo artista, com algodão, removendo a maquiagem, despindo-se do personagem até a próxima apresentação... Ali, em um mundo só dele, em um momento único, Zé Henrique pensava. 
Ele sabe que muitos não entenderiam o que estava sentindo. Ele mesmo não se entende. Não sabe o que mais ele pode querer. Só sabia que ainda lhe faltava alguma coisa. Mas o quê? Ele não sabe! Ele só sente. Com cada um de nós sentimos em algum momento da nossa vida. 
“Talvez seja a parte sentimental dos artistas”, você diria. Aliás, essa é uma das poucas profissões essencialmente humanas. Uma máquina ao consegue nos passar toda singeleza e força da alma humana. Só um humano sabe contar nos palco para outros humanos a dor e a alegria de sermos o que somos. 
Zé Henrique sabe disso. Mas talvez lhe falte na vida algo que nós somos incapazes de conseguir sozinhos. Talvez lhe falte um sentimento, que ele trocaria pelos milhares que lhe acorrem pelas redes elogiosas e nos aplausos calorosos de sua plateia. Talvez...
- Se alegre, homem. Veja o que você fez!
- O quê? Mais um monte de aplausos? Isso eu vi, meu amigo. Vi, e senti. É bom recebê-los. Como dizem, são minha força maior.
- O que mais você quer?
- Não sei. Só sei que preciso descobrir o que tanto me inquieta...
- Você está procurando chifre em cabeça de cavalo. Curte esse momento. É todo seu! Desfrute do sucesso que você tanto lutou pra ter.
- Você tem razão. Vamos sair e comemorar mais este sucesso.
- Isso Zé... É assim que se fala!

E lá se foi Zé Henrique comemorar seu sucesso do único modo que sabe: Com extravagância. Não apenas o modo de vestir, mas a vida dele sempre foi um tanto exagerada. Talvez fosse essa a máscara que sempre o protegeu dos olhares dos outros sobre sua alma. 
E ele costumeiramente esbanja imensamente nessas noitadas. Foi sempre assim. Enquanto se distraíam observando e comentando sobre sua casca, não tinham tempo de questioná-lo sobre o que ele não sabia responder, sobre o que ele não sabia entender.
Depois? Ah, depois ele volta para casa, totalmente tomado pelo cansaço. O Zé Henrique de fora descansa, e, enquanto isso, o Zé Henrique de dentro segue sufocado, espremido e oprimido, dentro de um homem de grande sucesso, desejado pelos fãs e consumido vorazmente pela mídia.

Leonardo Távora