O Mecanismo

Era uma vez no mundo um grupo de amigos.
Desses que hoje é raro se ver.
Por alguns motivos da vida eles acabaram se distanciando.
E a comunicação era precária.
Eles não conseguiam se falar com frequência.
Assim os laços se desfariam.
Afinal, o tempo e a distância costumam resolver essas coisas.


Mas um deles tinha a obsessão de reunir todos novamente.
E desenvolveu um sistema para que pudessem se falar.
Desenvolveu? É... Estudo aqui, tecnologia de guerra ali...
Ele enfim conseguiu fazer com que as distâncias sumissem.
Os amigos agora podiam se falar com mais frequência.
E de casa, não importava a distância que havia entre eles.
Enfim todos se reuniram novamente.

E o negócio era muito legal.
Realmente diminuía distâncias.
Rapidamente tudo se espalhou.
Um amigo daqui contou pro outro.
E este falou com um outro.
E o outro com um outro...
Enfim, as afinidades mútuas começaram a se reencontrar.
Sem dúvidas, uma maravilha moderna.

Empresas aderiam.
O mundo político aderiu.
Os religiosos também gostaram disso.
Ateus também acharam muito interessante.
Em pouco tempo era possível trocar rapidamente as informações.
Infinitas informações.
Leves, sensíveis e secretas.
O mecanismo deu certo e acabou com as barreiras.
E acabou também com as fronteiras.

Mas algum tempo depois algumas coisas desandaram.
As pessoas perceberam que podiam ofender.
Viram que isso não lhes causava agressão física.
E muitas vezes, a ofensa lá longe não era vista aqui perto.
Vida dupla.
Vida além daquela que se vive.
Era possível extravasar por uma mágoa daqui atacando outro lugar.
Era possível se vingar do maldizer daqui atacando alguém distante.

As pessoas passaram então a jogar seus defeitos num mundo de nuvens.
Tudo que não gostavam nelas própria materializavam nesse mecanismo.
A inveja e a soberba começaram a fazer do mecanismo algo hostil.
Celebridades instantâneas surgiram.
E logo, bem rapidamente, imergiram.
Fãs enlouquecidos fizeram no mecanismo a "jihad" que não faziam no “real”.
Pessoas começaram a se conectar a outras pessoas,
Só pra poder as invejar mais de perto.

E o inventor do mecanismo se entristeceu.
Não com sua criação.
Mas com tudo que o ser humano consegue deturpar no mundo.
Ele lembrou das coisas que foram feitas para o bem,
E logo usurpadas para disseminar o mal.
Então, ele, que criou um mecanismo tão legal,
Resolveu que já não dava mais para ficar.
Não valia mais a pena permanecer conectado.
Era muito melhor morrer.
Morrer para viver.

E ele morreu.
Se desligou.
E daí começou a viver.
Longe dos amigos distantes.
Mas perto dos que gostavam dele de verdade.
Assim ele voltou a ser feliz.
Sem mecanismos.
Sem vida dupla.
Fora do virtual,
E muito vivo no real.

Leonardo Távora