Apagador de maus sentimentos

A gente devia ter uma chave que nos fizesse esquecer aquilo que talvez não queiramos mais para nossas vidas. Seria muito mais simples fazer aquilo que desejamos virar fumaça em nossas memórias, devidamente apagado de nossas lembranças mais afetivas. Essas são as mais doloridas, inclusive. Quanto mais afetiva a recordação, mais doída será ter que, de algum modo, apagá-la. Mas não pode restar sequer a saudade!
Então, sugeriremos a Deus, em um abaixo-assinado como esses tantos que vivem circulando por aí, que ele crie nos próximos humanos esse dispositivo essencial à vida, que elimine sem dor toda lembrança que já não cabe mais na vivência. Veja bem. Estamos pensando em uma ferramenta essencial aos nossos filhos e netos e bisnetos e por aí vai. Estamos firmemente engajados em garantir a felicidade do mundo nas próximas gerações.
Sem as mágoas do não dito não teríamos inclusive as guerras tenebrosas que um dia assolaram nosso planeta. Nem as brigas de vizinhos, e nem aquelas desavenças entre casais. Veja que belíssima ferramenta da boa convivência nós teremos em mãos. Nunca mais as desavenças se dariam no campo das nossas relações porque não haveria aquele sentimento que vive de nos sufocar por dentro, corroendo o âmago de cada um, ainda mais quando o que se deveria esquecer vive fortemente lá dentro.
Certamente uma invenção dessas seria humana. Somos tão incapazes de conviver com nossos sentimentos, sobretudo os que dedicamos aos outros, que reiteradas vezes recorremos a algum dispositivo mágico que nos faça simplesmente apagar, diluir, o etéreo sentimento que habita em nós. Tudo que dedicamos a outras pessoas e que, via de regra, não tem obrigação de fazer o caminho de volta. Amar é contar com o imprevisível dos outros. Ninguém é obrigado a nos amar de volta. Mas corrói dar-se aos que amamos e não termos o retorno que desejamos.
Dispositivo mágico! Tomada liga-desliga! Botão para deletar sentimentos! Muitas vezes precisamos apenas entender como é saborosa a arte de viver. Não é preciso nada disso. O necessário é apenas entender que tudo que passamos é fruto do nosso existir. Ninguém fala em desligar momentos alegres. Esses nós queremos sempre mais. Mas não aprendemos que, para entender o que é ser feliz, precisamos também passar pelo que nos faz tristes. 
Não é pra doer. Não é pra sofrer. É pra aprender a dar o devido valor àquilo que faz com que queiramos tanto ser eternos. Para não sofrer mais, nos basta morrer. Mas isso ninguém quer, né? O bom é viver. E isso inclui também os momentos tristes. Esses, se soubermos entendê-los, passam logo, preparando o terreno para aqueles momentos em que gostaríamos que o mundo parasse para que os vivêssemos eternamente!

Leonardo Távora