As caixas espalhadas pelo quarto...

As caixas espalhadas pelo quarto, a cama apenas com o colchão e alguns de seus pertences em cima dela fizeram meu coração apertar a ponto de doer. Não havia mais volta, não havia mais tempo para nada, era ali, o último abraço.
Ele estava sentado, como sempre esteve todas as outras vezes que eu entrei ali... Algumas delas ele usava roupas velhas, em outras estava impecável, em outras seus olhos estavam imersos em lágrimas, em outras acabara de acordar...
Mas, naquele momento, seu rosto carregava um semblante triste. Como eu queria poder tirar aquela dor, como eu queria que o tempo parasse, como eu queria tê-lo para mim.
Sentei-me ao seu lado, abrindo minha bolsa e tirando algumas cartas e papéis para lhe entregar, e junto deles, uma mecha do meu cabelo... Parecia tão bobo cortar um de meus cachos para dar a ele, mas para mim parecia algo necessário, eu não sei explicar, mas parecia que minha vida estava naquela simples mecha de cabelo.
Após entregar tudo em suas mãos, e ele guardar com o devido cuidado, ele voltou ao meu lado e me envolveu em seus braços, cantarolando, como ele sempre fez.
A última vez que eu ouviria aquela voz, a última vez que eu o abraçaria, inspiraria seu perfume...
Eu não sabia o que falar, como agir, eu apenas sabia que tinha que permanecer em seus braços...
Eram meus últimos minutos sendo protegida por alguém que eu tanto amava... E só de pensar nisso, eu já me sentia completamente perdida.
O tempo passou, e sua voz, seu perfume, ficando gravados em mim, em meu coração... Eu sabia que a partir dali, teria que aprender a viver com aquelas lembranças, elas seriam algo necessário, quase que vital.
Às vezes a vida é tão injusta, no mesmo instante em que temos tudo que precisamos, de repente, temos que deixar partir...
Parte de mim estava feliz, era o sonho dele, a vida dele, o amor dele, ninguém poderia impedir isso... E parte de mim estava triste, a mesma parte que doía e que me fazia chorar... Eu me perguntava em como eu iria passar os dias sem aquele sorriso, aquela voz? Como eu iria caminhar sem aquela mão segurando a minha tão cuidadosamente? Quem iria me fazer rir, acreditar em mim mesma? Quem iria ver meu potencial? Quem iria fazer eu me sentir especial, eu me sentir amada? Quem iria cantar para mim? Quem iria me completar?
Eram tantas perguntas em minha mente, e nenhuma delas tinha resposta... Meus devaneios passavam ao ouvir aquela voz, ela tinha tanto poder sobre mim, sobre meu coração... Não era um poder controlador, e sim um poder que me dava paz... Como eu iria viver sem tudo isso? Como eu iria passar um dia sequer sem ele? A minha metade estava indo embora, e eu não podeia fazer nada.
O som do carro do meu pai estacionando na calçada fez meus olhos ficarem embaçados devido as lágrimas que apareceram sem pedir permissão...
Ele se colocou em pé e me segurou pela mão, exatamente como ele fazia a cada manhã assim que me via...
Enquanto nós caminhávamos até a rua, milhares de cenas se passaram por minha cabeça: A primeira vez que visitei aquela casa, o nosso primeiro momento juntos, as nossas tantas músicas, os beijos, o tão sonhado dia de cantarmos juntos, os recreios, ...
Quando me dei conta, já estava parada na calçada... Com tamanha dor no coração que eu pensei que não iria suportar...
- Vocês tem uma filha maravilhosa...
Pude ouvir a voz doce dele dizer isso olhando fixamente para meus pais, e eu senti que não iria conseguir me segurar, até que ele me envolveu rapidamente em seus braços e pousando sua cabeça sob meu ombro disse baixo: - Fica tranquila, fica calma... Eu vou voltar! -
Por um segundo a dor passou, e uma sensação de paz e certeza invadiu meu coração.... Não havia como não acreditar naquelas palavras... E ele continuou:
- Você foi uma das melhores coisas que aconteceram na minha vida, eu não vou te deixar, eu prometo que volto! Nem que seja só por você, mas eu prometo que volto! -
Eu o abraçava cada vez mais forte, e respirava um pouco aliviada, quando então nós dissemos ao mesmo tempo: - Eu Te Amo Muito! -
Eu fiz minha pausa mas ele prossegiu dizendo suas últimas palavras: - Me espera, eu vou voltar... 
A dor ainda estava dentro de mim, e em meus olhos ainda existiam lágrimas teimosas, mas uma pontinha de certeza misturada com paz tomaram conta de mim...
Eu sabia que poderia acreditar naquelas palavras, eu sabia, como sempre soube, que poderia acreditar nele...
Entrei no carro, e a última cena que vi, foi dele me mandando um beijo... Eu não ira vê-lo depois de três ou quatro dias e nem na outra semana. Ele iria ficar longe de mim, e dessa vez, por tempo indeterminado...
Meus olhos pesados por lágrimas decidiram deixa-las sair, seria melhor... Meu coração parecia sangrar de dor... Quando minha mãe soltou: - Ele vai fazer tanta falta! -
E eu não sabia o que dizer, eu não sabia o que pensar... Voltei para a casa com o coração pesado de dor, os olhos imersos em lágrimas e no pensamento, apenas uma frase: - Me espera, eu vou voltar...