Sobre o valor do 'amar'

O que é amar? Qual o sentido que esta palavra nos tráz? Amor é muito mais que apenas o simplório dizer ‘eu te amo’, hoje em dia já tão deturpado pela nossa sociedade, frase de efeito quase sem nenhum valor. Dizemos muito que amamos, quando o que existe, na realidade, é um carinho, algo terno, um gostar tranquilo. Dizemos do amor num simples gostar. Erro crasso do ser humano moderno.
Amar está muito além da empatia. O amor move as pessoas no sentido da união. Quando amamos queremos estar juntos, passamos a contar alegrias em dupla, e a dividir problemas, tornando-os mais fáceis ou menos pesados. Mas a maior particularidade do amor não está no sorriso sincero que se tem, ou naquele olhar vago, quando o espírito está longe, viajando nos pensamentos. Sabemos que estamos amando quando nos vemos diante do ato de perdoar. 
Eis aí a coisa mais complicada da vida de um ser humano. Todos nós somos egoístas e cheios de manias, e não admitimos que nos coloquem diante dos nossos espelhos particulares, os da alma. E como refletimos um padrão societário implacável, é mais aceitável que apontemos o dedo e digamos ‘culpado’, que paremos e tentemos entender as pessoas. Quando amamos de verdade, isso existe. Quando se ama, até o ser mais inútil do mundo merece um novo voto de confiança. E um novo... E um novo... E quanto maior o amor, maiores serão os perdões. 
Assim se fazem casamentos duradouros. Existe amor, porque aguentar as manias do outro é um exercício diário de paciência. E isso vale para as nossas manias que os outros aguentam também. Perdoar erros é algo que não se faz sem amor. E quando este amor acaba, terminam os compromissos assumidos em altares ou balcões de cartórios. A vida a dois fica insustentável. Ou se apartam, ou o lar, outrora feliz, torna-se um verdadeiro campo de guerra, inclusive com tomada de espaços importantes para o ‘inimigo’. Impossível viver assim. 
Mas até aí tudo bem, pois era amor. Apenas acabou e algumas pessoas custam a aceitar isso. Tem, claro, até quem não aceite o fim deste sentimento, e, inclusive, mate por um amor que só continua existindo mesmo na sua cabeça. O maior problema se dá quando o amar nunca existiu, em momento algum, mas, pra brincar, alguém diz o fatídico ‘eu te amo’. Por mais incrível que pareça isso está se tornando hábito nos dias de hoje. 
É pior ainda, pois enganar um coração é talvez a mais terrível das façanhas humanas. As pessoas acreditam nesse amor inexistente, dito apenas para conquistar. Quando se retira este chão do iludido, é como se o fosso não tivesse fim. Um sentimento de inutilidade toma conta. A vida perde o sabor. A dor de ser enganado e a outra face da moeda do amor – o ódio – fazem uma pessoa ficar amargurada, fria, seca. Daí, os modos de externar isso são os mais diversos possíveis, com dois que se destacam: A mulher chora. O homem se fecha. 
Na eterna roda da vida dos humanos, sentimentos são o que nos guiam. É quase como instinto. Você pode dizer que não escuta o coração ou que isso é uma bobagem sem tamanho. Mas a verdade é que, muito mais que a razão, o que comanda é o que se sente. Isso fica muito claro quando amamos. Não é o mundo que muda. É apenas a nossa forma de enxergá-lo que se vê modificada. E como vemos tudo diferente, não é mesmo? 
Amar é um estado de espírito. Só pode falar dele quem já amou, e já perdoou tantas e tantas vezes. O amor não implica que o outro seja como nós queremos, mas é um ato de aceitação. “Você é desse jeito seu, com todos estes defeitos e estas qualidades. E é assim mesmo que eu te amo”. Muitas vezes os defeitos são maiores que as qualidades. Mas ainda assim, se há amor, há valor. Desses cujo defeito nenhum pode ser maior. Ninguém é perfeito, mas todo mundo merece ser amado.

Leonardo Távora