A Moeda Dele

O vestido escondia pouco de minhas coxas, o decote dava ênfase no "tudo que é bonito é pra se mostrar". Ele tinha dito que eu estava linda, eu não acreditava, mas ainda assim, fui daquele jeito.
A avenida estava cheia, lotada, abarrotada de carros e pessoas; todos indo quase para o mesmo destino.
Era sábado a noite e o que todo mundo queria era aproveitar o dezembro.
Por morar em uma cidade litorânea, dezembro, janeiro e fevereiro são de longe os melhores meses do ano: Todas as boates abrem, turistas, festas e mais festas, bebidas a vontade.
Ele segurava firme na minha mão, andávamos apressadamente enquanto eu cuidava com o "vento X meu vestido branco". Tínhamos hora para chegar, as entradas vip's nos esperavam.
Não estava acostumada com roupas curtas, e muito menos, com aquele all star novo, que agora incomodava; mas ainda assim, não parei de andar.
Conforme nos aproximávamos do nosso destino, o número de pessoas paradas nas calçadas bebendo, fumando ou apenas conversando aumentava.
Pessoas de todos os estilos, tipos, tamanhos, jeitos, cores. Ali, eu não me sentia diferente, apesar de continuar olhando envergonhadamente para o chão.
- Para de segurar a barra d vestido, você tá linda! Vou ter que dizer quantas vezes? –
Disse mal me olhando enquanto empurrava as pessoas perto da esquina para podermos atravessar na faixa de pedestres.
Como se não bastasse o vestido ser branco, minha roupa íntima era rosa. Para completar, os faróis dos carros parados no sinal vermelho iluminavam o que não deveria ser iluminado. Provocando alguns assobios pelos passantes...
Era complicado acreditar no que ele falava. Eu sabia que era sincero, mas, era tudo tão estranho. Aquele mundo novo, aquelas roupas que mostravam (quase toda) minha pele, a maquiagem completamente carregada, o cheiro de cigarro, alguém sempre derramando bebida na minha perna... O mais engraçado nisso tudo era que cada detalhezinho, no fundo, me fazia sorrir. Eu era grata a ele por ter me mostrado o lado desconhecido da moeda; e que apesar do valor alto, valia a pena.
Já estávamos na praça, o que queria dizer que era só andar mais alguns metros, encarar uma fila que eu tentaria furar, e pronto: dançaríamos até as estrelas irem embora e o céu voltar a ser claro.
A costumeira parada na loja de conveniências aconteceu naquela noite, o diferente foi que, todos foram para a fila da entrada da festa, exceto eu.
Ele continuou segurando minha mão e disse: - Vem, vamos comigo! –
Sempre alguma das outras meninas que ia com ele, era um ritual. Compravam balas, chicletes, cigarros, água. Eu sempre ficava na fila, com alguém. Aquela noite foi diferente...
Procurou na prateleira um “free citrus”, foi em direção ao caixa e parou na minha frente.
A atendente olhava para minhas pernas, com certeza, para alguma da minha “coleção de cicatrizes”... Ou, para o tamanho do meu vestido, que mais parecia uma camiseta.
Abriu a caixa de cigarro ali mesmo, acendeu, tragou forte, e ficou me olhando.
Não sei explicar se gosto ou não gosto quando ele me olha daquele jeito. Parece que enxerga dentro de mim, me faz ficar arrepiada. Faz-me ter vontade de beijá-lo e de bater nele, tudo ao mesmo tempo.
Estendeu e mão e disse: - Vamos? –
Respondi timidamente: - Sim, vamos! –
- Ah, você está linda, demais! – Disse pela milésima vez!
Olhei para o chão e sorri enquanto minha mente se encarregava de processar mais um de seus elogios.
O resto da noite não importa, até porque dela, não tirei muito proveito. O resultado foi uma dor de cabeça que durou por todo o domingo.
Mas o que importa, é que mesmo eu não conseguindo acreditar, aos olhos dele, eu estava linda.

Andresa Alvez