Os dias brancos de Roças Novas

Certa vez alguém escreveu que não há nada como o nosso cantinho, onde somos o que quisermos, desde grandes heróis até apenas passantes no tempo da vida. É assim que se sente quando se respira o ar de sua terra querida. E não é diferente com este escritor aqui. Eu me sinto completo quando estou pisando as pedras irregulares que calçam as ruas, passando por cada canto do cartão postal que tenho sempre ao vivo diante dos meus olhos.
Sem dúvida todos irão concordar que os dias de sol da primavera por estas terras são muito bons. A temperatura é agradável, sem a névoa seca do fim de inverno que acaba tirando a plena visão da bela paisagem de montanhas que aqui rodeiam, e fazem de Roças Novas um colírio aos olhos cansados da urbanidade exacerbada das grandes metrópoles. Aqui a natureza fala mais alto. O calor do sol se une a uma umidade prazerosa, graças às árvores e ao vento gostoso que não cansa de soprar, muitas vezes suavemente, numa brisa muito tranquila. 
Mas – e aí nem todos, claro, concordarão – não há nada como os a neblina que emoldura a pintura viva que é Roças Novas. Dias em que o sol não aparece, e as nuvens parecem descer dos céus para tornarem-se humanas e habitarem entre nós. Dias mais frios, muitas vezes chuvosos, daqueles que olhamos pela janela e vemos gotas no vidro da janela e uma serração espessa lá do lado de fora. Tempo ótimo para um belo vinho tinto e seco, com aquele ótimo romance nas mãos, uma coberta e um casaco fino de lã para cobrir os braços. Lá fora a chuva – quando há – faz sua musica sem interrupções. Uma canção acalentadora, contínua. Estes são dias de maior contemplação. Eu, pelo menos, penso assim. 
Em dias brancos saem as grandes histórias de amor, as aventuras e os heróis, os melhores vilões... Tudo da mente incansável de um escritor que se inspira ao respirar as brancas nuvens que o rodeiam. O ar puríssimo que delas vem são a oxigenação que o cérebro necessita para poder transportar-se ao mundo onde acontecem as histórias, e de lá trazer a exata pintura, traduzidas em palavras, frases, parágrafos, capítulos... Fazendo com que você, aí mesmo, toda vez que parar pra ler um romance, também vá para este mundo, não da mesma forma, nem vendo as mesmas coisas que o autor, mas vivendo os mesmos sentimentos. 
Aí no seu coração as emoções, quando bem descritas pelo contador de histórias, são marcas que ficarão por muito tempo martelando dentro de você. Pois tudo o que se faz no solitário ofício de escrever nada mais é que transportar emoção para os corações dos que conseguem se transportar dessa realidade rumo ao mundo dos sonhos, das fantasias acalentadoras, por vezes tão melhores que a nossa própria realidade. E tudo isso pode nascer em dias brancos, tais como os simpáticos dias brancos de Roças Novas.

Leonardo Távora