Livro em Cena: "Conversas Iradas com Deus"

Este mês o Literatura Exposta trás a escritora norte-americana Susan Isaacs, em uma comédia muito prazerosa de se ler. Susan é, além de escritora, uma das atrizes de melhor reputação nos EUA. “Conversas Iradas com Deus” mostra um relato pessoal um tanto quanto inusitado sobre a discussão da relação dela não apenas com a religião, mas consigo mesma. Vale a pena adquirir este livro e se divertir com as histórias de Susan e sua conflituosa relação com Deus.
Quando uma amiga diz que ela precisa encarar seu relacionamento com Deus como se fosse um casamento, Susan decide levar o Todo-Poderoso para a terapia de casal. Nestas memórias comoventes - e também cômicas - Susan conta sua espinhosa relação com o Criador. Colocando-se no papel de esposa negligenciada, ela critica o "igrejismo" da sociedade moderna. Mas será que ela está disposta a amar o Deus verdadeiro, na alegria ou na tristeza? 
Boa leitura!


CENA: CONSULTÓRIO DE RUDY / INTERNA / DIA 

Susan está esperando por Rudy no consultório dele. Ela observa com atenção as fotografias na parede (câmera faz um traveling na parede de fotos), enquanto ele não chega. Então, ela vê um retrato famoso de Jesus, onde ele está sentado parecendo calmo e bondoso. Rudy chega afobado, correndo. 

Rudy: Puxa, me desculpe. O trânsito estava péssimo. Sabe como é, né? (Rudy senta-se em seu sofá, e acena com a mão para que Susan sente-se também) Então você é Susan, a moça que deseja levar Deus para a terapia de casal? 

Susan acena afirmativamente com a cabeça. 

Rudy: Passei a semana toda esperando por isso! (risos) 
Susan: É óbvio que não espero que Deus se materialize e venha conversar conosco. 
Rudy (dá de ombros): Pois eu acho que seria bem legal se ele fizesse isso. (Pausa) Mas eu também tomei ácido antes de ser salvo. 

Susan olha com descrença para Rudy, com cara de “que maluco”. 

Rudy: Isso foi há 35 anos. Fui pastor por vinte anos também. 
Susan: Por que deixou de ser? 
Rudy: Terapeutas ajudam pessoas que querem ficar bem. (ele ri mais uma vez) Então, Susan, conte-me como chegou aqui. 
Susan: Bom, pra resumir, ou Deus não é pessoal e eu perdi meu tempo, ou ele é pessoal e me odeia. 
Rudy: Eu acho que há uma terceira opção. Deus a ama, mas coisas ruins acontecem mesmo assim. 
Susan: É fácil pra você dizer isso aí, sentado em sua confortável cadeira de terapeuta. 
Rudy: Ela não é confortável. Não tem apoio lombar. 
Susan (sem paciência): Rudy, eu sei que coisas piores acontecem a pessoas melhores. As minhas são apenas tragédias de uma garota da classe média. Mas eu sou uma garota da classe média, e, então, essas são as minhas tragédias. 
Rudy (acenando positivamente): Então, onde quer chegar com a terapia? 
Susan: Ensinaram isso a você na escola de terapeutas? É puro terapeutês. 
Rudy: De que maneira posso colocar isso? O que espera que aconteça aqui? 

Susan hesita por um momento. 

Susan: Deus não vai mudar. Ele é imutável, certo? EU quero mudar. Mas nem tudo é culpa minha, não é? Parte disso é responsabilidade de Deus, ou pelo menos da igreja que o representa, não é mesmo? 

Rudy dá um sorriso amarelo, concordando sem querer muito com o que Susan está falando. 

Rudy: Eu nem sei lhe dizer quantas pessoas vêm aqui se sentindo desse jeito em relação à igreja. Estou falando de cristãos firmes. Gente que frequenta assiduamente a igreja. Não sabem onde está sua fé, ou onde está Deus. Acho que a igreja se afastou do evangelho, e levamos muita gente conosco. Pessoas como você. 
Susan: Estamos em um culto? Jesus saiu de cena? 
Rudy: Desculpa. É que eu fui pastor, e tenho um sentimento de proteção por gente como você. Só queria que soubesse que não está sozinha. E, olha, há boas notícias. Você pode mudar com a ajuda de Deus. Então, me diga por que quer fazer disso uma terapia de casal. E com Deus. 
Susan: É mais fácil reclamar com uma pessoa do que com um conceito. 
Rudy: E quem vai falar por Deus? 
Susan: Você, oras, que é o terapeuta/pastor. Podemos fazer uma encenação. Eu serei Susan, a esposa negligenciada, e você será Deus, o marido relapso e cruel. 
Rudy: Eu não posso falar pelo seu Deus, Susan. 
Susan: Mas nós acreditamos no mesmo Deus: Pai, filho e Espírito Santo. 
Rudy: Mas o meu Deus não é relapso e cruel. Eu gosto dele. Sinto-me seguro com ele. Precisaria ver Deus do jeito que você o vê. Você precisa ser a voz dele, como se de fato ele estivesse na sala conosco. E, Susan, Deus pode mudar, sua percepção dele pode mudar. Aliás, tem de mudar, porque você não pode continuar casada com alguém relapso e cruel. 
Susan: Então o que vai fazer? 
Rudy: O que qualquer terapeuta de casal faz. Serei o mediador. Vou confrontar. Se você perder o foco, tentarei trazê-la de volta. 
Susan: Vai nos separar se ficarmos violentos? 

Rudy sorri. 

Rudy: Vamos trazer Deus para a sala. 

A cena se fecha em um close no rosto de Susan. Ela está olhando para Rudy, sem acreditar muito. Então ela fecha os olhos, e a cena se abre novamente no cenário, com Deus na sala, em uma imagem parecendo holográfica, pois é a imaginação de Susan, que permanecerá até o fim da cena de olhos fechados. 

Rudy: Senhor, está disposto a comparecer à terapia todas as semanas? 
Deus: É, pode ser. 
Rudy: Não parece muito entusiasmado. 
Deus: Eu tenho um universo inteiro para administrar. Agora vou ter que escolher entre minha inefabilidade e uma sala de recreação para Susan ficar pegando no meu pé? (Para Susan) Você tem razão. Isso aqui não é Darfur. Trate de se superar. 
Rudy: Uau, você deveria ser um Deus amoroso. 
Deus: Amar alguém não significa estragar com mimos. 
Susan: Existe uma diferença entre me estragar com mimos e esfregar as coisas na minha cara. O que foi aquilo no parque? 
Deus: Consegui sua atenção, não foi? 

Então Jesus aparece no cenário, também como criação da mente de Susan. 

Jesus: E aí, Suzie. 
Susan: Seu pai é tão mau comigo! 
Jesus: Sei que você está sentindo dessa maneira, mas ele a ama. Lembra do que eu disse: “Quando me vires, terás visto o pai”? 
Deus: Sim. A trindade. Você não se lembra de nada? 
Susan: Então, onde está o espírito santo? 
Deus e Jesus: Por aí. 
Rudy: Susan, você percebe como dividiu Deus e Jesus em bonzinho e durão? 
Deus: É. E por que eu sempre tenho que ser o durão? 
Rudy (Para Deus): Sarcasmo não vai ajudar. 
Deus: Não me culpe. Sou apenas produto da imaginação de Susan. 
Rudy (suspirando): Vou merecer cada centavo que ganhar aqui. É evidente que estão zangados um com o outro. A raiva é sinal de mágoa. Mas não nos magoamos com pessoas que não importamos. Só com quem amamos. Então existe amor aqui. 
Deus: Jesus e eu nunca ficamos zangados um com o outro. 
Rudy: Eu sei que você é o ser supremo, senhor, mas, nesse momento, eu gostaria que ouvisse. 

Deus revira os olhos. 

Rudy: Antes de terminarmos, queria que vocês falassem uma coisa que gostam um no outro e algo que os magoa ou irrita. Susan, você começa. 
Susan: Não tenho problema nenhum com Jesus. Bem, exceto quando fui vítima de Bullying por três anos e rezei por sua ajuda e você não apareceu. Mas imagino que estivesse ocupado. Quanto a Deus Pai... eu amo a sua criação. Eu adoro a bíblia e tal. Mas o jeito como devastou a minha vida... Acho que agora eu sou a má. 
Rudy: Muito bem, Susan. Quem é o próximo? 
Jesus: Eu. Ei, Suzie, sinto muito por você ter sentido que não a ajudei. 
Susan: Tudo bem. 
Jesus: Conversamos sobre isso depois, mas saiba que eu amo você. 
Susan: Eu também amo você. 
Deus: Quero lembrar, Susan, que Jesus sou eu! Se você o viu, então viu a mim. Não sou só o cara durão! 
Rudy: Senhor, é com isso que está zangado? A história do cara durão? Porque já mencionou isso duas vezes. Se deseja falar, gostaria que seguisse minhas instruções e começasse por algo que aprecia. 
Deus: Não gosto que fique me corrigindo. 
Rudy: Você não me intimida. É apenas produto da imaginação da Susan. 
Deus: Vamos ver. (Para Susan) Eu amo você. Não por nada que tenha feito, mas porque é da minha natureza amar. 
Susan: Puxa, isso faz com que eu me sinta realmente especial. 
Deus: Gosto da sua criatividade. Do seu atrevimento. Você ficou comigo todos esses anos, quando outras pessoas se afastaram. Continuou firme, ali, como um carrapato. No entanto... 
Susan: Lá vem. 
Deus: Eu me incomodo com o fato de você me culpar por tudo. E não existo só pra lhe dar o que você deseja. 
Susan: E eu existo pra lhe dar o que você quer? 
Deus: Bem, na verdade... 
Rudy: Chega. Não é pra responder, apenas pra ouvir. Vocês ouviram um ao outro? Susan ama o Deus que ama a justiça e a compaixão, mas se sente rejeitada. Deus ama Susan,mas ressente-se por levar a culpa de tudo. E Jesus... pede desculpas. Lembrem-se que onde há amor verdadeiro, há dor real. Eu ficaria mais preocupado se vocês não tivessem nenhuma queixa, pois então não seriam íntimos. Certo? 

Deus e Jesus desaparecem, enevoando-se. Com isso, Susan vai abrindo os olhos.

Rudy: Isso foi bom. 
Susan: Isso foi estranho. 
Rudy: Sim, mas também foi bom. Trata-se de uma aventura. Para cada sessão, quero que você escreva sobre um período de sua vida e traga para discutirmos. Conte-me de onde veio este Deus Pai zangado e sarcástico. Fale-me sobre o Jesus que a amava, mas não interveio. De onde você tirou essa imagem de Jesus? 
Susan: Dali. (aponta para o quadro famoso de Jesus) 
Rudy: Então escreva sobre ele. 

A câmera vai se afastando enquanto os dois se despedem, com diálogo livre.