Pretextos para explicar os pretéritos

Nos teus braços havia um trapiche.
Decidi então caminhar pela madeira escorregadia, úmida e cheia de limo.
Ameacei cair durante o percurso, mas me segurei forte o bastante em algo abstrato que tamanha força me deu.
Quão lento foi o trajeto, saudoso. Quero dizer, frio de saudades. Mas havia calor na voz que nascia da canoa, me alcançava na marola, e pescava-me.
Ocorreram-me tantos pensamentos. Céus... Quantos!
Desconfiei que eu não soubesse o que era vida.
E não sabia. Mas sabia do que se tratava “viver”.
Havia água doce na placenta da mãe vida, e eu, o descompasso, por ordem natural de pai destino, fui precoce, e me auto-pari.
Pari-me para que nos teus braços eu descobrisse logo o desabrochar do Amor. Para que conhecesse todo e qualquer sentimento que não fosse efêmero. Para tornar-me homem.
Teus braços bailavam jogando as redes de longe, para que eu corresse, pulasse, e me embolasse em ti e na tua vida.
Pois no rio vivia um peixe. E nos teus braços um trapiche.
E eu corri.
E corri, e saltei, e caí.
E morri afogado.
E morri de Amor.
E venho morrendo, então, de Amor, todos os dias.

Claudio Rizzih.