Sobre os detalhes sonhados

Ele havia me dito que seu tórax era um pouco mais projetado para frente que os demais de sua espécie, devido a um pequeno desvio na coluna, e o pior era que eu gostava disso, como se fosse um pequeno detalhe só dele. Sabe, não existia ninguém mais no mundo como ele, e nem existiria... Mas, não era (apenas) esse detalhe que fazia dele um ser único (e apaixonante).
Eu gostava de ver sua expressão de sono, como ele ficava logo após bocejar, como ele deitava seu rosto em meu ombro, dando para sentir a respiração. 
Como ele dormia tranquilo, vê-lo adormecer fazia meus problemas, todos, se dissiparem; era como se não houvesse mais nada. Meus dedos se aninhavam em seu cabelo comprido e os bagunçavam delicadamente...
Ele não tinha postura nenhuma, mas quando lembrava disso, ficava ainda mais bonito, e se esforçava, mesmo que não precisasse. Era uma beleza angelical, belezas angelicais não precisam de esforços.
Era bonito vê-lo tragar, ele respirava forte, como se estivesse fazendo aquilo a muito tempo, como se tivesse muita experiência, seus lábios ficavam entreabertos, a fumaça saía pelos cantos, e seus olhos ficavam fixo nisso... Muito parecido com os beijos.
Ele foi a primeira pessoa que me ensinou a beijar de olhos abertos; ele não olhava a nossa volta, eu sentia seus olhos sob os meus, e vez ou outra, eu os abria, para poder ver mais de perto, para poder sentir mais perto, para poder sentir queimar.
Eu gostava como falava ao meu ouvido, seus sussurros sem maldade, exatamente como os anjos devem fazer. 
Eu gostava de vez ou outra acordar com seus braços sob os meus, ou com suas pernas pesando sob as minhas.
Dos dedos do pé até o tornozelo, do tornozelo até seus joelhos magros, dos joelhos até as coxas, nem tão finas e nem tão grossas mas sim, exatamente como eu gostava; das coxas até os quadris, prestando atenção em detalhes dos quais não devo dizer, dos quadris até a barriga, com seus caminhos e curvas; da barriga até seu tórax, com suas pintas e ossos salientes; meus olhos caminham até os ombros e a extensão de seus braços, que ele reclamava vez ou outra por serem finos, mas que eu não via defeito algum, principalmente quando esses me abraçavam pelo pescoço.
Ah, seu pescoço... Que sonho seria abandonar meus lábios por ali, esquecer deles e voltar para buscar algumas semanas depois.
Meus olhos eram presos por seus lábios, pela sua fala calma, por todas as pausas. Sua pele fina, delicada, parecia que alguém havia desperdiçado muito tempo cuidando dela.
Mas eu serei eternamente apaixonada pelo sorriso, pelo som da risada, como ele gargalhava dizendo meu nome, como era bom ouvir meu nome sendo dito por ele, numa madrugada qualquer onde eu não tinha medo de nada.
Eu fiz meu caminho sozinha, e agora escolhi voltar. Talvez eu tenha me apaixonado pela figura que eu criei, mas seu físico, seus jeitos, teus detalhes tão íntimos, foram esses que me levaram ao encantamento, a profunda hipnose.
E mesmo que meus lábios nunca mais o toquem, e mesmo que eu não provei mais uma vez seus tantos sabores, eu achei ali segurança, um pedaço de lar, proteção.

Andresa Violeta Alvez