O rochedo e o mar

Havia um velho rochedo
Fincado no meio do mar
Enfrentava em pé e sem medo
O vai-e-vem das ondas

Era grande, rijo e forte
E bravamente resistia aos choques
Não temia sequer a morte
Fazia o que precisava ser feito

A batalha era inútil, em vão
Uma onda o espancara outra vez
Mal respirava e, então
Outra onda vinha logo depois

A gaivota assistindo à distância
A luta do rochedo contra o mar
Voou pra perto dele, cheia de ânsia
E com boa intenção, deu-lhe conselho

- Rochedo, pra que tanta teimosia?
Não vês que é uma guerra perdida?
Aqui és surrado todo dia
Por que insistes, se nada tens em troca?

O rochedo respondeu, sem se mexer
- Não sei como aqui vim parar
Nem sei o que devo fazer
Sei que aqui estou e devo ficar

A cada dia, as ondas me deixam menor
Tiram-me um pedaço a cada pancada
Deste líquido que escorre de mim, em dor
Não sei o que é lágrima e o que é água salgada

- Rochedo, as ondas são assim
Ir e vir é o que elas fazem melhor
Assim será até o seu fim
Desista pelo seu próprio bem

- Se me deixo levar, afundo
Perderei mesmo sem saber
O que vim fazer neste mundo
E abrirei mão do que quero ser

Celso Garcia