Um conto sobre a humildade

Muitos anos já se passaram desde aquele dia em que nascera um raro humano no mundo. Não, ele não é o mais famoso da história. Nem tampouco o lendário dos contos ingleses, nórdicos, gregos e romanos. Pensador? Pode ser (Aos homens). Mas não tinha o renome de Sócrates ou Pitágoras, ou mesmo Agostinho de Hipona. Mas ele era famoso. Na cidade dele, sem dúvidas. Na região, eu diria, sua fama corria a largos passos.
Seu nome era José da Paixão Cruz. Era mais conhecido como Zé Paixão. Bom, pelo menos era assim que todos o chamavam. Sabe, nessas cidades menores e mais aconchegantes, as pessoas são muito pouco chamadas pelo nome, aquele do batismo. Por mais bonito e caprichado que seja o que os pais dão (existe uma verdade), o apelido acaba sendo sempre mais forte e eficaz. É mais fácil e deixa as pessoas mais singulares. Então, esse nobre pobre homem era o Zé Paixão.
O fato que tornou o Zé Paixão famoso foi uma situação inusitada e inesquecível tanto para ele quanto para quem presenciou. Era noite de festa na cidade (Pelos séculos!). Carros andavam buzinando pelas ruas, sinalizando inclusive que os motoristas já estavam ‘calibrados’, e pessoas passavam felizes pelas calçadas acenando. O momento era alegre. O Zé Paixão, que adorava ver essas alegrias, resolveu passear pela cidade também, com seu carrinho. Nada novo. Muito usado!
Andando pela cidade, ele acenava de volta para as pessoas que o cumprimentavam. Muitos sem nem o conhecer. Estava tudo muito bom. Até que o carro que estava à frente parou bruscamente, para evitar atropelar dois brigões no meio da rua. Como estava distraído, Zé Paixão acabou batendo. Que tristeza!
- Poxa, mas o senhor é muito ruim de volante. Acabou com meu carro – Disse o dono do carro da frente, com ares de senhor da cidade, todo empinado... E muito bravo!
- Caramba. Tava olhando a alegria da cidade. O erro foi meu mesmo. O senhor me desculpe, por favor. Eu vou pagar o conserto do seu carro.
- Vai pagar como? Com essa lata velha? É capaz que tem só isso na vida.
- O senhor me desculpe mesmo assim. Foi um erro meu. Quero consertar.

Veio então um dos brigões –o outro foi embora com medo–, vendo a impaciência do empinado, que esbravejava contra o pobre do Zé Paixão (Seja calmo), que continuava apenas pedindo desculpas. 
- Moço, não briga com o senhor aí. Ele tá pedindo desculpa. Qual parte disso você não entendeu?
- Cala a boca que a conversa não chegou ao berçário ainda.
- O bebê aqui enche essa sua cara aí de porrada, seu babaca.

Zé Paixão entrou no meio da nova briga, dessa vez com voz autoritária.
- Chega de briga. Hoje é dia de festa, ou já se esqueceram. O senhor, todo empinado, é incapaz de conversar, de aceitar um pedido de desculpas sequer. Talvez sem essa cerveja toda na cabeça o senhor pudesse ser mais gente. O rapaz, que eu nem conheço, só quis ajudar. Pode ir parando!
- E quem vai pagar o meu prejuízo?
- Fosse o senhor alguém de bem, e vendo que tudo aqui foi um acidente, nem teria começado a discussão. Mas se faz tanta questão de encrenca, eu não faço e não compro essa briga. Meu cartão tá aqui e o senhor me ligue amanhã que pago seu conserto. E, mais uma vez, desculpa pelo meu erro.

A voz do Zé Paixão ficou forte (Esses ‘fortes’ vencemos), e o empinado senhor se calou, entrou em seu carro, e saiu cantando pneus dali. O Zé Paixão, muito constrangido, foi até o rapaz.
- Obrigado pela ajuda. Não fosse você, acho que eu iria apanhar hoje.
- Eu to muito chateado de ter causado tudo isso. Quero pagar o conserto do carro do senhor. Vai ficar caro, e a culpa é minha. Me perdoe, por favor? 
- Fica tranquilo. Você não me deve nada.
- Mas fui eu que causei isso. Me deixa ajudar pra me redimir?
- Eu já estou feliz de perceber sua humildade e sua coragem por assumir seu erro. A culpa não é só sua. Tem o outro rapaz com quem você brigou, e tem um erro meu de atenção. Se eu não estivesse distraído, não teria batido. Fica tranquilo. Se tinha alguma culpa, você ficou livre dela com sua atitude e seu gesto de humildade. 
- Mas...
- Segue seu caminho.

Nenhum deles esqueceu aquilo. Zé Paixão não era famoso, nem pensador, nem nada dessas coisas. Mas ele sabia o valor que tem um gesto de humildade. Com seu perdão, e com essa lição, aquele jovem certamente modificou sua vida. Aquele senhor provavelmente continuou com sentimentos empedrados, mas, ah, lembra sim. E o Zé Paixão (Na simplicidade de um gesto de humildade!), veja só, continuou sendo o Zé Paixão, porque gestos de grandeza nem sempre escrevem a história, mas, se transformarem uma vida sequer, já serão, talvez, uma grande realização da humanidade. 

(Agora, por favor, será que você poderia voltar ao início e ler apenas o que está entre parênteses no decorrer desse texto?)

Leonardo Távora