Inventando: "Sentimento Revolto"

A cena de hoje não é alegre, nem divertida. É dramática, densa e fechada. Acho que, talvez por isso, eu tenha escolhido ambientá-la em um local belo. Gosto da paz de lugares que possuem um lago em sua paisagem. Pode ser incrível, belo, e ao mesmo tempo mortal. É um contraste com o mar revolto e fechado que existe dentro do Fernando, o personagem principal da cena deste mês. Tomara que gostem. 
Boa leitura!
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CENA: BEIRA DA LAGOA / EXTERNA / FIM DE TARDE 

FERNANDO (25 anos, estatura média e barba curta e bem feita) está sentado à beira da lagoa, em um banco. Em um travelling, vemos o ambiente bonito do lugar. Ele está com um semblante entristecido, mas sem choro. Enquanto Fernando olha para o nada e joga pedrinhas no lago, ouvimos uma voz: 

VOZ FEMININA 
(V.O) 
Não to te entendendo. A gente já passou por isso. Você sabe que eu te amo. Só não é do seu jeito. Mas somos parceiros, ué. Temos planos. 

Fernando leva a mão ao rosto e suspira profundamente, tentando esquecer. 

FERNANDO 
Não. Eu não posso mais aceitar isso. De novo não. (pausa) Me ajuda, meu Deus, a esquecer. Eu preciso disso. Não posso... Não posso. 

Fernando continua triste, mas sem chorar, olhando para o lago. Algum tempo se passa. Ele se levanta, e começa a olhar fixamente pra frente, mirando o lago. Quando ele começa a caminhar na direção do lado, ouve MIGUEL (30 anos, alto, magro e usa óculos) o chamar. 

MIGUEL 
Eu não sei exatamente o que você tá pensando fazer, mas acho que não devia. 

FERNANDO 
(ainda fixo no lago) 
E por que não? 

MIGUEL 
Se é pelo que eu to pensando, porque ela simplesmente não merece a sua vida. Isso é prêmio para ela. Você morre, mas ela continua aí, viva, linda, feliz, e usando muitos outros além de você. 

FERNANDO 
(agora olhando para Miguel) 
Então eu deveria acabar com a vida dela. É isso? 

MIGUEL 
Além de acabar com a vida dela, você estragaria a sua. Não vale a pena. Além disso, ela merece é ficar viva. O mundo dá voltas, meu amigo. 

Fernando dá um levíssimo sorriso e senta-se à grama, cruzando os braços nas pernas. Ele volta a olhar para o lago. Miguel se senta ao lado dele, também olhando para o lago. 

MIGUEL 
Qual a nova dela? 

FERNANDO 
Tá namorando de novo. 

MIGUEL 
Hum. E você tinha esperanças de que, dessa vez, ela olhasse pra você com amor. 

FERNANDO 
Ela me disse que me amava. 

MIGUEL 
Me corrija se eu estiver errado, Fernando. Mas, não é a primeira vez que ela te diz isso e faz o que fez. Correto? 

FERNANDO 
É... Eu sei. Mas, e se ela estivesse mais madura, mais centrada, menos instável? Eu precisava dar esse voto de confiança. 

MIGUEL 
Mais esse voto de confiança, né. Sim, porque eu já perdi a conta de quantos votos você já deu a ela, e sempre levou ferro. Todas as vezes. 

FERNANDO 
Olha, eu já sei que sou um idiota, estúpido, uma besta, tá. Tudo que eu não preciso agora é de uma lição de moral. 

MIGUEL 
Se eu te falo desse jeito é porque eu gosto de você, meu amigo. E detesto te ver sofrendo, ainda mais por causa dela, e ainda mais porque mais uma vez você se deixou enganar. 

FERNANDO 
Mas eu a amo, poxa. É tão difícil entender isso? 

MIGUEL 
Mas ela não, poxa. É tão difícil entender isso? 

Fernando abaixa a cabeça em silêncio. Miguel olha para ele e puxa Fernando, dando um abraço. Agora Fernando começa a chorar. 

MIGUEL 
Isso, meu amigo. Chora que faz bem. Ajuda a passar. Só não pode fazer bobagem. Ainda mais por causa de alguém que não liga se você tá vivo ou não. Se tá inteiro ou aos pedaços. Chora que to contigo, cara. Coloca essa tristeza pra fora, Fernando. 

A câmera vai se afastando mostrando as costas dos dois nessa posição. E ouvimos a voz de Miguel. 

MIGUEL 
(V.O) 
Amanhã é outro dia. E tem muita gente no mundo esperando uma oportunidade de nos fazer feliz.

CORTA PARA