Inventando: "Assim como a luz do teu olhar"

Na segunda edição desta seção, eu escolhi uma cena de uma estória que me cativa muito. Escrevi há um tempo. Foi o primeiro conto especialmente produzido para uma musa inspiradora, e por isso tenho um carinho grande. É sempre mais legal escrever quando se tem uma musa tomando nossa inspiração. Assim fazemos muitas coisas que poderíamos até não dar conta sem esse “incentivo”. 
Letícia é um amor conturbado de Henrique. Ele é um estudante em vias de se formar, com muitos sonhos na cabeça. Na cena, Henrique está cheio de esperança, pois vai reencontrar Letícia, que está vindo à cidade com uma peça. Na cena, ele arquiteta a ida ao teatro com seu amigo, Caio. Quer surpreender sua amada. 
Boa leitura!

CENA: PRAÇA DA LIBERDADE / EXT. / DIA 

Apanhado de imagens da praça, mostrando o dia-a-dia bucólico deste lugar, em contraposição à agitação da cidade. Sempre fazendo um contraste. (Corta para Henrique) Mostre Henrique passeando distraído pela praça. Ele observa os prédios, as fontes, as palmeiras da Alameda Travessia. Então Henrique senta em um dos bancos próximos à Alameda. Durante essa cena, inserir o áudio abaixo: 

HENRIQUE 
(V.O.) 
Eu só não queria mais saber do amor. Andava só com minha solidão. Não que eu não mais quisesse me apaixonar, mas eu tenho medo do amor. Tenho mesmo, de verdade! Sabe quando se gosta tanto de alguém, mas por algum motivo esse amor não pode ser vivido? Pois é, e isso dói muito. Era disso que eu queria fugir. Era isso que eu não queria mais para mim. 

Henrique, então, é abordado por seu amigo, Caio. 

CAIO 
Vamos! Temos que ir pra faculdade ainda. Temos que nos arrumar, cara. 

HENRIQUE 
É... Eu sei, Caio. 
(Pausa)
Ah, se eu pudesse estudaria todos os dias num dos bancos dessa praça. Me sinto tão bem aqui, mesmo com essa agitação toda da cidade. 

CAIO 
É... Essa praça é tudo de bom mesmo. Não sei você, mas eu me sinto 
(falando mais alto) 
realmente livre quando estou aqui. 

HENRIQUE 
(desconcertado, olhando para os lados) 
É doido, gente! Liga não. 
(puxando Caio) 
Pode ir parando com as suas maluquices. Eu sou teu amigo, e não tua babá. 

CAIO 
Ah! Relaxa, cara... E vamos logo porque senão perdemos o primeiro horário. 

HENRIQUE 
Vamos!... Ah... Você comprou os ingressos da peça? 

CAIO 
(Continência militar) 
Sim senhor! 
(Pausa... Tom normal) 
E você viu as flores lá que disse que ia comprar pra ela? Lembrou, Don Juan? 

HENRIQUE 
(Rindo) 
É Claro que lembrei, cabeção. Copos-de-leite. As preferidas da Letícia. 

Henrique abaixa a cabeça por um instante. Caio vê, demonstrando preocupação. 

CAIO 
Que foi, cara? 

HENRIQUE 
Nada não... Só me lembrei de quanto tempo tem já que não a vejo mais. Ela era só uma iniciante. Agora chega aqui encabeçando uma peça. Eu lembro dos sonhos dela, e do quanto ela queria isso. 

CAIO 
Fica assim não, meu amigo. O que vale é o que vem aí. Prepare-se, senhor Henrique. Tem muita história pra ser contada nesse reencontro. 

HENRIQUE 
É verdade! Bom, mas vamos. Temos uma aula pra assistir. 

Os dois caminham pela Alameda Passarela na direção do Palácio da Liberdade. Inserir o áudio abaixo: 

HENRIQUE 
(V.O.) 
A paixão nos torna um tanto ciumentos e portadores de todas as verdades do mundo, sendo que o próximo também tem sua opinião das coisas. Eu me deixei cair em um belo travesseiro de palavras. O problema é que as palavras o vento leva, e quando o vento levou a última palavra, me restou apenas o chão, enlameado pelas minhas lágrimas. 

Aqui se pode abrir a câmera, Na direção do palácio, mostrando-os de costas, e colocar no mesmo quadro a imagem das palmeiras, numa panorâmica da praça, enquanto eles caminham e correm ao final do trajeto. 
(FADE OFF) Inserir o áudio abaixo com a cena já totalmente escurecida: 

HENRIQUE 
(V.O.) 
Dalí em diante, eu jurei pra mim mesmo que nunca mais me entregaria ao amor. Eu pensava que o amor era ácido que corrói nossas almas, destrói nossos pensamentos e nos faz viver num mundo louco de paixão, intriga e ciúmes. E eu estava decidido mesmo. Quase morri por causa desse falso sentimento. Não queria morrer pro mundo de novo, mas a verdade é que eu não voltava para a realidade depois desse engodo que vivi. Só que essa história, ao contrário do que pensei, está só começando...