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Ladrãozinho de sonhos

“Uma árvore que cai faz mais barulho que a floresta que cresce”. 
Verdade. O erro chama mais a atenção que o acerto. O erro cria medos. O medo rouba sonhos e encolhe a vida. 

A gente aprende

Imagine-se naquele dia em que tudo que acontece na sua vida deixa de ter um porque. Se pense naqueles tempos em que você tenha, mesmo que apenas por um momento, desistido da felicidade, ou, ao menos, não acredite nela com tanta certeza assim. Certamente o sentimento que te norteará é o de tristeza. Leve, intensa, de algum modo, tristeza. 
Agora, avance mais um pouco. O ponto imediatamente posterior na sua vida está intimamente ligado com a chegada de alguém. Se antes alguma perda te fez sofrer, essa chegada te fará mais alegre. Imagine-se dando novo sentido à própria vida. Muito provavelmente, ao fazer isso, sua mente te fará lembrar alguém que já fez isso a você.

A garota da praça

Pra quem olha assim, friamente, parece uma distância curta. Mas, eu sei que não é bem assim, há que se calcular os potenciais riscos existentes no trajeto, as eventuais chances de fracasso e, principalmente, o medo que toma conta desse meu coração cansado de apanhar.
É bem verdade, nem precisa dizer, que quem não arrisca não petisca. Ou como diriam os mais eufemísticos, que quem não chora não mama. Ressalto, porém, em minha devida defesa, que também é verdade que gato escaldado tem medo de água fria e que, não obstante, macaco velho não põe a mão em cumbuca. Eu aqui, perdido em meus devaneios, tentando explicar meus fracassos amorosos com o uso de provérbios e metáforas, finalmente me dou conta que o tempo passa e joga contra mim.
É que eu queria me aproximar com uma frase inteligente, ou uma citação de algum filme ou livro ou daquela música do Vinícius, porque aí você, ao menos, logo de cara, me acharia culto, quem sabe. Fato é que pensei em nada, até agora, que superasse em efetividade o famoso Oi, tudo bem? Quem diz oi tudo bem hoje em dia? Coisa em desuso, esse oi tudo bem. “Oi tudo bem uma ova”, você iria dizer, com toda razão. É por isso que olho pro chão como quem tivesse perdido ali algo importante, como a coragem ou o tato com as mulheres (não, este definitivamente eu não perdi, nunca o tive). Eis aí meu ponto fraco e fator máximo de minha solidão, a dificuldade em chegar até alguém como você, bonita e segura de si, tão completa por si só, uma mulher independente, daquelas que honram suas antepassadas que queimaram sutiãs em praça pública. Vai precisar de mim pra quê? Pra abrir o pote de azeitonas? Pra matar baratas com chinelo de dedo? Não.
Você não vai me dar bola. Por que daria, se até hoje ninguém o fez. Claro, talvez alguma tivesse feito caso eu houvesse dado o primeiro passo. Justo eu, dar o primeiro passo? Parece brincadeira! Por que não você? Afinal, hoje em dia homens e mulheres têm direitos iguais, então por que tem que ser eu a dizer a primeira frase, justo a primeira, a mais sofrida de todas. Se a primeira frase vai embora, lá se vai junto a boa primeira impressão, aquela que, dizem, é a que fica. Não, não vou até aí, você que venha até aqui, pronto, está decidido. Eu faço charme e você faz o flerte, é melhor pra todo mundo, ou pelo menos é o melhor pra mim.
Segundos depois me dou conta que não, você não virá até mim, terei eu que chegar em você. Se não tem frase inteligente, que seja uma burra, mesmo. Daquelas como vai chover, está calor aqui, está frio acolá. Mas, primeiro, eu que me decida se vale o que sinto por dentro ou por fora, se está quente ou frio.
Não fosse eu tão tapado, tão zero à esquerda nessa coisa de amor, poderia jurar que te vi me olhando umas duas, talvez três vezes. Entenda, não sei ler direito os olhos das pessoas, ainda mais quando são lindos como os seus, não sei se quis me dizer alguma coisa. Então, faz assim, pra facilitar, dá um sinal mais claro, algo com a mão ou, melhor, fala comigo. Pra não deixar dúvidas. É que eu ia odiar ir até aí e ver que não foi sinal nenhum, que me aloprei ao acreditar que você me daria uma chance. Eu, macaco velho que sou, não ponho a mão em cumbuca.
O tempo passa, joga contra o meu querer. E eu, que quero e não posso, te vejo levantar, me olhar uma última vez e partir. Sabe lá se te vejo de novo um dia desses, sabe lá se era pra ser o que não foi. Tudo que sei é que não foi porque não fui. A essas horas, num universo paralelo qualquer, nós dois estamos juntos.
Taí, odeio encontrar uma frase inteligente quando ela já não me adianta de nada...

Celso Garcia

Cálate!

É uma gaiola
Onde querem te colocar
Pássaro que canta bem
Atrai a atenção do gato
Por isso, bico fechado!
De que servem tuas belas notas
Contra o zurro do burro?
Vence quem grita mais alto
Vence quem tem poder,
Não quem tem poesia

Retroceder

Acho que nesse momento, ninguém em toda zona terrestre está mais confuso, sentindo medo e perdido do que eu.
Lentamente, é como se minha mente voltasse, trazendo a sensação de abril.
As lágrimas que derramei durante trinta dias, a falta de sono, de apetite. As semanas sem fim, os dias que se arrastavam. É como se a minha paz tivesse evaporado.

Medo das linhas

Escuro me dá tontura. Mas também, faz vir a tona todos os meus fantasmas. É no breu que eles despertam. 
Eles nasceram no passado...
Amores vem e vão, os de verdade ficam. Mas todos, até os passageiros, deixam uma assombração.
Algo que vai te fazer dormir mais tarde todas as noites, algo que vai tirar o seu apetite num almoço em família.

O que todo mundo deveria saber...

A vida é uma sucessão de lutas.
E nos pede incessantemente que sejamos guerreiros.
Não aqueles de espadas empunhadas,
Mas dos que sabem sobrepor-se às adversidades.

Somos feito de uma história de encontros.
E a casualidade é a mãe dos grandes amores.
Quando pensamos que já vimos de tudo na vida,
O acaso vem e junta (ou a vida escolhe),
Do nada,
Duas vidas que se completam.

A maçã vermelha

Olhos abertos. Rudeza. Aspereza. Tristeza. Um ringue, essa é a verdade.
Cansou de lutar, de apanhar. Fechou os olhos.
Agora é gigante, maior que tudo. Usa prédios para palitar os dentes, os caminhões são seus patins. Gulliver sentiria inveja ao vê-la brincando de escorregador nos viadutos (estes não existiam em Lilliput). O oceano é a banheira onde toma banho e Moby Dick, o terror dos mares, é um pato de borracha em suas mãos. Quack!
Abriu os olhos. Dificuldade. Falsidade. Desigualdade.
Fechou os olhos de novo.
Agora pode voar, se quiser. Os pés descolando do chão, a gravidade tornando-se suavidade. Leve, mais leve, abre os braços, o vento sopra no rosto, lambe gentilmente os cabelos. Lá embaixo o mundo fica pequeno, as pessoas viram formiguinhas carregando cinquenta vezes o próprio peso nos ombros em forma de problemas. Sobe mais alto, gira, dá cambalhota em pleno ar, chega ao espaço sideral. Voa mais rápido que a luz (sim, Einstein, é possível). Chega ao fim do Universo, onde descobre que as galáxias e estrelas são papel de parede colados numa imensa bolha de sabão, prestes a estourar. Ploft!
Olhos abertos. Dor. Horror. Temor. Tudo era medo. 

O Guarda-chuva

Começou quando ela ainda era pequenininha. Chovia forte. Ela estava no quintal, desprotegida, ensopada, com frio e medo. Sua mãe chegou com um guarda-chuva e a protegeu do temporal.
Funcionou. A partir dali, sempre que via o tempo nublar, cobria-se com seu guarda-chuva. E nunca mais temeu nuvens negras.
Quando já mocinha e cansada de queimar-se de sol, resolveu também usar o guarda-chuva em dias de céu claro. 

Medo do frio

“I will not let anything take away
What's standing in front of me.”

É como se tudo na minha vida passasse por um processo, como se cada um tivesse uma missão, e nenhum destes que aparecem tem o dever de fica para sempre... Principalmente aqueles que eu Amo mais que a mim.
Mesmo com mais de três anos juntos lidando com mudanças de cidade, de características, com namoros extremos, com loucuras, com vícios e todo o resto; quando algo novo surge parece que estou ouvindo essa notícia pela primeira vez na vida.

Quem tem medo do bicho mau?

Davi nunca foi um cara que tinha problemas com animais. Na verdade até gostava deles. Mas dos domésticos, pois, como toda pessoa exclusivamente da cidade, ele convivia mais com cachorros, gatos (que gostava menos, certamente por achá-los traiçoeiros) peixes, e alguns destes pequenos roedores que foram transformados em animais carinhosos. Mas, certamente de igual modo a todos os urbanóides, tinha problemas com aqueles animais “asquerosos”. Na verdade era medo. E o medo transforma a nossa visão da realidade.
O maior medo dele eram as aranhas. Sim, aquele animal de oito patas. Bem, ele pensava do seguinte modo: “Elas tem oito pernas, e eu duas. Tem oito olhos, e eu dois. Logo, são seres superiores a mim”. Claro, todo medo não é algo engraçado. Mas as situações que ele vivia por causa deste problema eram sim uma verdadeira comédia. A história que agora lhes contarei se encaixa perfeitamente nisso que falei. Por favor, tente não rir muito do drama do nosso amigo.
Tudo começou quando Davi numa noite, já em altas horas, foi até a cozinha para tomar um copo de leite, pois este era seu ritual de preparação para dormir. Mas naquela noite o sono nem passaria perto desse nosso amigo. Ao olhar desapercebidamente para o chão, viu que uma dessas aranhas, das grandes, estava conseguindo, com muito esforço passar por debaixo da porta. Aquela cena o deixou travado, com muito medo. Aquela aranha, certamente peçonhenta, era mesmo de amedrontar qualquer pessoa. Só mesmo os biólogos poderiam sentir algum carinho por aquele bicho.
Ao conseguir adentrar, ela viu Davi. Os dois se olharam como os famosos pistoleiros do velho oeste faziam no cinema. Nenhum movimento se fez no lugar. Eles ficaram ali, se encarando, vendo quem tomaria a ação primeiramente. Aquela seria uma noite de batalhas. Quem venceria? Difícil resposta. Davi tinha a vantagem de ser um humano, e poder contar com todo tipo de parafernálias que os seres humanos utilizam para afastar perigos, desde vassouras e chinelos ao infalível veneno. Mas a incrível aranha, uma caranguejeira provavelmente, era veloz, e se conseguisse se esconder debaixo de algum móvel estaria salva e poderia arquitetar um plano de aniquilamento enquanto Davi dormia.
Veneno! Esse seria o mais fácil. E era preciso muito. Uma latinha das grandes, pelo menos, para garantir. E Davi foi então, com muito cuidado à procura do veneno. Ao encontrar, uma decepção. O vidro estava no fim. Como matá-la? Era preciso bolar algo logo, antes que a aranha conseguisse se esconder. Daí ficaria impossível até dormir, pois seria preciso ficar alerta pra quando a vilã resolvesse atacar de modo vil e covarde. Bom, pelo menos no pensamento de Davi era assim. Naquele momento ele estava dominado pelo medo. E o medo tem o poder de distorcer nossa percepção da realidade. Ficamos em alerta, acho que até mesmo para nossa percepção.
Davi resolveu então “encurralar” sua inimiga pública número um em um canto sem móveis. Aos poucos foi empurrando-a, sob a ameaça do veneno, pois, claro, ela não sabia que ali quase não tinha nada. Na vida, é preciso jogar com o medo do nosso inimigo antes que ele jogue com o nosso. Davi sabia disso. E resolveu enfrentá-la. Fez uma cara de malvado. E aos poucos foi conseguindo seu intento. A terrível aranha foi ficando sem ação. Davi estava ganhando a arada. E isso era bom. E se o veneno não desse certo, a vassoura estava ali para trabalhar.
Devidamente protegido no alto de uma cadeira, ele despejou o resto do veneno que tinha no vidro naquela sua inimiga temível. Ela ficou branca com o veneno em cima do seu corpo. Isso a deixou imóvel. Davi ficou feliz e pensou em gritar a vitória, mas desistiu disso, pois todos na casa dormiam. Seus pais ficariam muito bravos se acordassem por causa da morte de uma aranha. Mas Davi estava feliz, pois seu problema havia acabado. Enfim, ele poderia tomar o leite e dormir sossegado. Mas aquela batalha ainda não tinha terminado.
Incrivelmente, a aranha se mexeu, e começou a caminhar para debaixo de um móvel perto. Davi ficou assustado. Como poderia essa coisa não morrer. Era biônica? Que desesperador. Ele então lançou uma vassourada nela, para impedi-la de chegar a um lugar seguro. Com sorte, ela morreria com a vassourada. E Davi ficou algum tempo com a vassoura pressionando a aranha. O silêncio era ensurdecedor. Será que, agora, ela finalmente tinha morrido? Ele foi ver. Tirou a vassoura de cima dela. Ela andou novamente. Num ato de bravura, Davi deu várias vassouradas naquela aranha asquerosa. Agora sim, ela encolheu as pernas, morta.
Mas era preciso garantir a morte dela. Davi então recolheu aquele corpo com uma pá de cabo bem grande. Levou para fora. Pegou uma escada, um vidro de álcool e um fósforo. Colocou a aranha na calçada, jogou álcool e ateou fogo nela. A aranha queimou até virar cinzas. Agora sim, Davi poderia dormir sossegado. Aquela guerra havia chegado ao seu fim. Finalmente, o perigo já não existia mais. Ele vencera sua inimiga, seu maior medo traduzido em um animal de difícil convivência.
Na manhã seguinte, ao acordar, Davi ainda sentido o sabor da vitória. Na mesa do café da manhã, cumprimentou todos, com um sorriso normal dos vencedores. Sua mãe, já desconfiada, lançou logo a pergunta:
- Davi, você sabe quem colocou fogo na calçada?

Fazendo poesias: "O Medo"

Não sei o que acontece
De repente tudo estremece
A voz quer desaparecer
A mente tenta não esquecer

To falando de um sentimento
Que me aperta fundo o peito
Que me coloca num estado de torpor
Algo que não consigo contrapor

Eu, que sempre quis fazer direito
Sei que todo mundo tem defeito
Que não existe um ser perfeito
E, sabe, eu sou meio sem jeito

Ainda assim eu tenho o medo
Acho que fico assustado
Algo que não sei bem falar
E que me impede de mais alto voar

Alguns chamam isso covardia
Eles nem sabem como isso irradia
Bem rápido me dá vontade de ir
De daquele lugar logo sair

Medo que me paralisa
E como em uma areia movediça
Hoje me impede de prosseguir
Medo que não quero mais nutrir

Mas isso eu vou vencer
O medo fazer desaparecer
E assim poder falar
Tudo aquilo que eu sempre quis contar