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Minha pequena morada

E só cedo, quase oito da manhã, que ele foi me olhar do jeito que eu queria que tivesse me olhado a noite toda.
Os lábios entreabertos, e os olhos fixos no meu rosto, foi o primeiro momento em que eu me senti realmente especial.
Saí tarde de sua casa, com sono e com as pernas doendo; minha cabeça repassava, como um filme, cada cena. Minha memória rebobinava tudo a cada minuto, mesmo sabendo que automaticamente, tudo se auto destruiria. Saí de sua casa grande, maior, não cabendo dentro de mim.

Um último abraço

Desci as escadas apressadamente, aquele tempo, minhas pernas funcionavam mais.
Ajeitei a mochila no ombro esquerdo, que já estava dolorido por causa do peso de todos os livros que carregava.
Graças aos Céus tinha terminado minha prova de química. Ficar "de recuperação" em pleno dezembro não era algo que eu me orgulhava, mas isso não era uma consequência, e sim, uma escolha.
"Ah mas as suas amizades né", era o que minha mãe mais dizia. Mas, eu havia passado tanto tempo com a cara grudada nos livros e não tinha ganho nada em troca, faltavam apenas 3 anos para minha vida escolar acabar, e o que eu havia aproveitado disso? Então, eu decidi levar como podia, não iria mais me matar estudando ou coisas do tipo. Eu era inteligente, mas tinha algumas matérias que, de forma alguma entravam na minha cabeça, e uma delas era química, e era por esse motivo que naquela manhã de dezembro, eu estava descendo as escadas do colégio.

Dos pensamentos


Minha mente foi levada ao passado nesse momento. Como naquela mesma noite, pude sentir meus olhos arderem por culpa das lágrimas, mas dessa vez, pude derrama-las sem medo.
Era uma noite de verão, mas calafrios percorriam meu corpo. Minha cabeça doía.
A dor e o sofrimento eram opcionais, mas, era meu coração que estava em jogo. Ou melhor, era meu coração que tinha entrado naquele jogo, eu era a última pessoa do tríangulo. Se é que existia um.
Naquele instante, eu queria poder correr, fugir, me abrigar em algum abraço. E poderia até ser no dele. Se, o coração e a mente dele não estivessem ocupados demais para não notar meu semblante mudar de 'feliz' para 'derrotado' em poucos segundos.

Ponto X

Baguncei seus cabelos ao puxar a camiseta, jogando-a longe dali.
Os olhos estavam ainda menores com aquele sorriso armado nos lábios.
Beijei os ombros nus e brancos, passei meus dedos por sua nuca, tateando a corrente que vive escondida, escorreguei minha mão até chegar no pingente, e colocar o mesmo exatamente no meio do seu peito.

Sobre os detalhes sonhados

Ele havia me dito que seu tórax era um pouco mais projetado para frente que os demais de sua espécie, devido a um pequeno desvio na coluna, e o pior era que eu gostava disso, como se fosse um pequeno detalhe só dele. Sabe, não existia ninguém mais no mundo como ele, e nem existiria... Mas, não era (apenas) esse detalhe que fazia dele um ser único (e apaixonante).
Eu gostava de ver sua expressão de sono, como ele ficava logo após bocejar, como ele deitava seu rosto em meu ombro, dando para sentir a respiração. 

Da falta das asas

Eu queria que alguém entendesse como esse "deixe ir" dói. 
Principalmente quando o "deixar" não é uma opção sua.
Oh Céus, como eu queria adormecer só mais uma vez nesses braços.
Os ombros com ossos expostos, 
o pescoço coberto de pequenos sinais, os olhos miúdos.

O primeiro (alfa)beto

O sol está quase nascendo. 9 meses depois, tempo pra formar uma vida, mas no nosso caso, tempo para morrer, e de novo.
Eu pensei em colocar alguma música triste para me fazer escrever, para me fazer vomitar pelos dedos tudo que sinto, mas não consegui pensar em nenhuma; então, optei pelo silêncio, porque com ele, o sofrimento fica mais forte.
Céus, como a tua saudade me dói! O som da tua risada, o teu jeito desastrado de ser.

Armadura

Surgiu na hora mais perturbadora da noite, exatamente quando meu sono decidiu sumir por completo. Na primeira madrugada eu já te quis. Não era uma necessidade carnal, era carinho... Eu só não quis dizer.
E lentamente, mesmo sendo um homem de lata você desfez todas as minhas camadas, até não sobrar absolutamente mais nada.
Restando de mim, apenas as histórias, medos, verdades, cicatrizes e nenhuma maquiagem. 

Com (e sem) vergonha

Ainda lembro-me do teu sorriso tão novo, eu gostava muito dele. Você era um dos poucos meninos que sentava do meu lado antes de começar a aula. Acho que naquela época eu era uma aberração... 
Mas você nunca teve vergonha de mim. As meninas sempre ficavam por perto, mas dos meninos, você era o único, e isso me fazia feliz. 
O tempo passou, e pra variar, eu me perdi por aí. Mas a vida sempre faz a gente esbarrar em quem tem que reencontrar. 

E não volta

Eu quero poder manter viva em minha memória uma das nossas lembranças mais simples, porém, a mais gostosa de se lembrar.
Quero fechar os olhos e sentir o cheiro de tudo que queimava, lembrar de como eu apoiava minhas pernas nas suas enquanto você fazia carinho em minhas coxas.
Quero sorrir ao lembrar da sua história baseada em penas coloridas e uma tarde na praia enquanto ouvíamos Jack Johnson.
Quero gargalhar ao lembrar de como você fazia eu rir alto e frouxo. Quero nunca me esquecer de como com aquela meia luz você ficava ainda mais lindo do que já é.

Sede do fim

Sabe o que é o pior de tudo depois que você tenta se matar e sai sem sucesso? 
Isso sempre acaba se tornando uma opção.
Mesmo que você tenha prometido para os seus melhores amigos, para você mesmo, para todos a sua volta que te Amam.
Quando tudo começar a desabar, o chão tremer e a mão que você mais precisar não estiver por perto, você vai sentir essa sede.
Sede de acabar logo com toda essa palhaçada que a sua vida se tornou, sede de colocar um final silencioso em toda essa situação.

Pra uma vida inteira

Eu caminhava apressadamente, mesmo sabendo que não poderia fazer isso. Meu foco era o banheiro feminino, único lugar onde eu estaria salva naquela manhã gelada de sábado.
Os passos do sapato de couro preto tilintavam no piso, logo atrás de mim, eu estava tão atenta, que conseguia até ouvir qual parte do chão estava oca ou não.
- Vem aqui! - Ele dizia num sussurro, ao mesmo tempo que soltava gargalhadas!
- Não, não! - Eu respondia enquanto marchava até meu destino; ao chegar neste, empurrei a porta e fiquei atrás dela, ouvindo a pequena mão de unhas ruídas bater na madeira velha.

Era

Eu esperava muitas coisas de você, de nós dois, menos essa distância. Distância de coração!
Eu lembro da última tarde que passamos juntos, do cheiro do cigarro de canela, do vento frio do morro, de todos os outros casais juntos perto de nós, da visão do céu, de como eu me sentia tão em paz com você por perto. Lembro de tantas palavras que queriam sair mas que eu engoli cada uma.
É confuso tentar escrever sobre isso, sobre a sua falta, porque parece que eu não te conheço mais.

De leite

Me fiz em cicatriz pra te conquistar. 
Me formei milhares. 
Nos pés, coxas, tornozelos.
Em pintas. 
No colo, no braço, do lado.
Me fiz doce.
 De leite. 
Com leite. 

Assumindo Proteção

Caminho através dos troncos finos de eucalipto, ouvindo apenas o vento, minha respiração e as batidas aceleradas de meu coração; meu órgão que sofre de ansiedade.
Ando armada. Com armas de brinquedo, ultrapassadas. Eu procuro por algo que eu ainda não sei o que é... Mas, eu busco atenção.
Meus pés pequenos chutam as pedrinhas, meus olhos atentos no chão para que eu não vacile e nem caia.
Alguns gravetos arranham minhas pernas, grudam em meu vestido rodado, nos meus cabelos; eu tento me desvencilhar deles, tento deixar tudo para trás. Eu apenas caminho.

Da tarde

A brisa da tarde entrava pela sacada, a brisa da nossa cidade. Passando pelos meus pés, pernas, coxas, alcançando onde só tu alcançavas e me provocando um arrepio. O mesmo arrepio que você sempre soube bem como provocar.
- Está frio... – Você disse enquanto esticava o braço para me envolver.
Sua pele me deixava em paz, o simples toque dos teus dedos magros nas minhas costas me deixava assim. 
E mesmo isso já tendo acontecido mais de uma vez, eu sempre acharei novo, eu sempre acharei impossível.
Princesas de vidro no fundo, não são tão princesas assim. Elas não sabem que são flores, elas não acreditam que existem cravos para elas.

Sintonizar

Eu não entendia nada do que ela me dizia. Na realidade, eu nunca entendi uma palavra sequer que saia da boca dela.
Em todas as vezes que esbarramos, em todas as noites que tive que respirar o mesmo ar que o dela, em tudo, eu não entendia absolutamente nada. 
A única coisa que eu queria, era saber porque ela agia daquela forma. 
Porque ela tentava ser tão Amável? Ou simplesmente com um sorriso me dizer “Eu não quero te machucar”?

O fim de toda tarde santa

Hoje eu me senti meio adolescente de novo, como nos velhos tempos... 
O sol estava baixo, pintando o céu de mil cores, eu saí pra pegar um ar, respirar fundo quando ele chegou. Mesmo com toda minha dificuldade para ver o que está longe por culpa dos meus problemas visuais, ainda assim eu consegui ver o sorriso; o sorriso bobo, de menino, o mesmo sorriso com e sem aparelho pelo qual eu me apaixonei há tanto tempo atrás, e aquele mesmo olhar. 

Da calçada

Uma casa muito quente, 
pipoca de micro ondas, 
o colchão no chão sem lençol, 
uma jarra de suco aguado, 
o teu sorriso frouxo do meu lado esquerdo, 
incomodar os vizinhos.

Mesmo Mês

Eu já achei tantos pedaços meus espalhados por ai, mas nenhum é igual a este em questão. Ou melhor, nenhum dos meus pedaços se encaixa tão perfeitamente a mim quanto este.
Talvez eu goste mais dele do que de todos os outros porque o sinto muito igual, com todos os ciúmes e paranoias, com todas as mordidas e carências, tão igual e tão diferente, tão perto e tão distante.